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Archive for fevereiro \28\UTC 2012

“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro.Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” ( Friedrich Nietzsche)

 

 

A mente tem o estranho dom de construir buracos ou armadilhas, e frente a eles, nos agarramos com força, selando as mãos ao que se encontra ao alcance delas, mesmo que sejam apenas paredes ilusórias e muros inexistentes de proteção e contenção de tudo aquilo que se encontra tão dentro de nós. Cada um de nós guarda um monstro debaixo da cama ou um fantasma atrás da porta. Assim como a criança borra e encharca as calças em confronto com o imaginário, borramos nossos dias com os pensamentos sombrios que o medo nos desperta e encharcamos nossas almas com sensações que não explicamos, não entendemos. Sensações que não sabemos de onde vem; apenas que existem e tornam-se presentes nos momentos mais inadequados.

Reféns daquilo que não escolhemos, mas elegemos como inimigo, enveredamos por um labirinto de traças que nos perseguem e mergulhamos em um emaranhado de riscos que nos sufocam. Afoitos por sobrevivência e perdidos em toda essa alucinação voluntária, buscamos a via de salvação.

Nos defendemos do medo com as armas próprias que o medo nos fornece, sejam um grito ou uma lágrima, e, tontos em um carrossel assombrado de pensamentos irreais, descobrimos o momento propício de enfrentar o medo após tempos de refúgio e tremedeiras. Da desgraça, pintamos a gravura mais bonita; na escuridão criamos o feixe de luz vívida; na jornada arriscada desta quase letargia, nos tornamos íntimos desse opressor. Como se vencer o medo fosse semelhante ao aliar-se a ele, no medo que nos faz fracos, nos fazemos fortes; nos fazemos cúmplices das possíveis ameaças que tanto nos incomodam. Driblamos o medo até mesmo por medo de não suportar tal medo por tanto tempo; ou nos tornamos frutos esculpidos por ele para, na seqüência, sermos poderosos além de nossas medidas. 

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Metáfora De Cada Amanhecer

Descobriu que toda aquela escuridão era somente um véu, cravejado de brilhantes, que a noite faceira usava, já preparada para seu encontro com o sol quando o dia raiasse. Perdeu o medo do escuro.

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Construtor

Sabia que dificilmente arranjaria emprego, mas sempre catava trabalho. Nos dias em que em que a sorte lhe sorria e havia oportunidade, trabalhava; nas noites em que a fome permitia, dormia. Analfabeto de pai e mãe carregava nas costas o peso de uma infância dura, o fardo de uma vida desletrada. Conhecia somente a realidade da pá de areia, dos sacos de cimento e das pilhas de tijolos que, assim como ele, torravam no sol a pino. E vivia um dia de cada de vez, pensava uma coisa de cada vez debaixo de cada edifício que ajudava a erguer.

Dos tempos passados, saudosamente guardava a lembrança de querer ser doutor. Cada vez que falava isso, dizia sua mãe: ‘larga de bobiça menino! vontade é coisa que dá e passa…’ Ela estava certa, sempre esteve. Passou. Passou no dia em que se viu com sede, sem água pra beber ou qualquer coisa que servisse pra forrar o estômago no final de uma tarde. Lembrava da cena como se um filme lhe tomasse o pensamento: na casa de sapê, a mãe sentada na soleira da porta, buchuda de mais um menino, ele, aos sete anos de idade, com os três irmãos mais novos, esperando pela chegada do pai. E o pai só foi chegar quando já era noite fechada, com um cigarrinho de palha pendurado no canto da boca e uma garrafa de pinga pela mão. Olhou de olho virado pros filhos, sorriu desdentado pra mulher. O sonho do diploma ficou ali, na soleira daquela porta. Descobriu que precisava trabalhar se quisesse comer, se quisesse que os irmãos comessem e se quisesse alimentar a mãe e o menino que ela carregava.

Achou trabalho. Foi ser na roça aquilo que a incompetência e o vício não permitiam que seu pai fosse dentro de casa: um pequeno homem. Com o dinheiro da lida levava o leite dos irmãos, feijão preto e umas bananas pra fortificar. Não fez fortuna, não estudou; muito aprendeu. Comprava comida e alimentava com gosto aqueles que, até então, passavam fome com ele. Na lavoura viu passarem-se os anos e quando a cidade tomou o campo ele, já crescido, encarou a edificação. Foi levantar casas e construir os sonhos daqueles que podiam sonhar.

Na construção a vida não era fácil. Estava sempre sujo do pó de brita e entortado pelos sacos de cimento que carregava nas costas. O dinheiro que entrava saía no mesmo pé; não rendia. Nas mãos, além de calos e fissuras, carregava uma grande história que pra muitos olhos poderia parecer pequena. Foi muito no pouco que pode oferecer. Era a pintura clássica do sujeito comum que, sem delírios de grandeza, mas de maneira singela abdicou do que não tinha, abdicou das faltas que constantemente vivenciava, para virar o jogo e fazer a diferença para os seus. E fez!

Naqueles anos todos, desde que começou a trabalhar, criou os irmãos e viu nascer o caçula da prole sem nenhum traço de desnutrição. Quando o pai morreu, lhe deu sem mágoas um enterro digno, com flores e cortejo. Conseguiu água encanada e luz elétrica pro casebre; conseguiu, vez por ano, presentear os mais novos em cada Natal; conseguiu fazer com que outros olhinhos pudessem brilhar. Com o passar dos anos viu cada irmão seguir seu destino. Suprimiu algumas vontades em prol de outras vontades que somente ele pode fazer com que valessem a pena, somente ele pode realizar. Mesmo depois de tanto tempo, depois de tantos feitos, quando encostava em um monte de areia da construção pra refazer-se depois do almoço, arriscava sonhar algum sonho só seu… Despertava com a voz da mãe, já velhinha, ecoando dentro dele: ‘larga de bobiça, menino!…’ E retomava o trabalho, com sorriso largo estampado na fuça, pois sabia que sua vida era de construção: construiu lavouras, construiu os sonhos dos seus e os sonhos de outros. Construía os sonhos daqueles que podiam sonhar e, sem saber, sem sequer ter sonhado isso, realizava-se ao descobrir-se essencial pra tanta gente. Não nutria nenhum arrependimento. Sabia que quando o tempo chegasse, senhor esse de todos os destinos, o seu destino teria sido cumprido,  farto das possibilidades que criou no tanto que viveu.

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“A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu. (…) Receio que não possa me explicar, Dona Lagarta, porque é justamente aí que está o problema. Posso explicar uma porção de coisas mas não posso explicar a mim mesma!”*

 

Mas se alguém perguntar como estou, direi apenas que estou indo. Sem destino, sem bagagem. Talvez eu possa preencher o tempo com as coisas novas que o tempo trouxer… Talvez no escuro de mim mesma seja possível ver a luz… E mesmo que seja só uma vela acesa ao vento, será luz. Ainda assim luz. Luz de um porquê qualquer, de uma desventura, de possíveis alegrias ou esperanças diminutas que venham a brotar.

Mas se alguém perguntar onde estou, direi apenas que em algum lugar. Sem latitude, sem longitude. Um lugar qualquer onde possa reencontrar o sonho que perdi e não me recordo onde… Um lugar qualquer onde o inverno seja mais acolhedor e onde o calor possa crescer de dentro pra fora… E mesmo que seja um lugar distante, será o meu lugar. Um beco, um canto de poucos encantos, onde as pilhas de nada que levei, em decoração rústica irão se fundir com os aglomerados de muito que eu encontrar.

Mas se alguém perguntar pelos que deixei, direi apenas que os mantenho aqui. Sem amarras, sem lonjuras. Cada qual ocupa seu próprio instante exatamente como antes… Cada qual com o devido peso e valor que sempre lhes atribuí… E mesmo que estes tantos sejam poucos, serão meus companheiros nessa jornada. Uma estrada de pedras, um caminho de flores, uma vida a ser vivida.

E se ainda assim alguém perguntar quem sou eu… Ah!… Direi apenas que sou eu mesma… Aquela que sempre fui, dando voltas pra atravessar o mundo… Aquela sem jeito certo; sem o traquejo entre últimos e primeiros, só meios…  Aquela que mantém os olhos abertos, a grafia petulante e um friozinho na barriga; buscando uma bagagem de tempos novos, em um lugar que eu mesma escolhi, com aqueles que sempre amei.

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* “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll.

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Foi-se…

Destino traiçoeiro que nos leva quem mal chegou, que nos tira aqueles que não nos deveriam ser tirados. Estranheza essa coisa de ter que ficar pra ver partir quem veio depois; completamente desconexa a disparidade de eventos que nos tiram dos eixos e nos mostram que a fatalidade pode estar logo ali em uma esquina, em um muro, em uma madrugada. Surpresas que não pedimos pra ter, notícias que não queríamos ver chegar.

Ao abrirmos os olhos vemos a cortina arriar. Os sons que ecoam são somente o choro daqueles que ficaram, lamentos de uma saudade que já brota, canto surdo do vazio desesperador. Esperamos a poeira baixar e o coração acalmar… Ele não acalma. Nem sempre ele acalma. As imagens antigas vem e vão em flashs, como rompantes de uma presença que virou ausência. As vozes que agonizam por dentro de nós contestam a não aceitação de um fato que ninguém escolheu vivenciar, assim como a dor que lateja e a lágrima que engolimos seca. Inertes, sem ação, guardamos a palavra que foi dita, um último abraço e o sorriso mais bonito.

Sem despedida e sem formalidades, foi-se de repente. Atravessou a ponte para seguir travessia do outro lado do caminho. Foi-se pra onde ninguém vê, foi-se quando ninguém esperava; foi-se assim como chegou: sem planejamentos, num susto. Foi-se menino sendo já um homem, foi-se homem sem ter deixado de ser menino… Foi-se guiado pelas mãos do Pai para os braços do pai… Seguiu sereno nessa imensidão divina rumo à luz de um porvir eterno, onde todos nós um dia, enfim nos encontraremos de novo.

“No sentido máximo do amor, quando ele é divino, você é apenas uma flor de lótus liberando sua fragrância… Então não há mais morte, nem tempo, nem mente – você é parte da eternidade.” (Osho)

***

“Quem parte leva saudade de alguém, que fica chorando de dor…” Por ele, que partiu de repente, no exato momento onde tudo, enfim, faria sentido.

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