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Archive for maio \19\UTC 2017


subversiva
No transcorrer de minha história nasceu uma profunda paixão pelas palavras. Dos tempos remotos da infância trago a lembrança dos livros intocados na estante. Muitos desses livros pareciam conter um mistério. Do alto de minha pequenez, de onde eu estava, títulos e nomes de autores se embaralhavam numa constelação embaçada de letras. Subia na cadeira e esticava o braço para pegá-los. Queria-os perto de mim. Bastaria consultá-los, como se faz a um oráculo, para que o universo preso àquelas páginas se abrisse aos meus olhos curiosos. Mas eu não os alcançava, muitos deles nunca peguei. Em várias tentativas, só encostei de leve a ponta do dedo em suas lombadas, recolhendo-a em seguida, aveludada de poeira. Assim como uma tumba de faraó inexplorada, nunca soube se tais livros ocultavam tesouros ou maldições, e esta questão ficou gravada em mim, tanto que, hoje, em todos os livros que abro e folheio, busco sempre aqueles que ficaram, ainda perdidos, nas estantes de alguma das  minhas remotas infâncias.
Eu continuo a persegui-los. Porém são esquivos; acossam-me em sonhos e insinuam-se à minha imaginação; me provocam, me atiçam. Como horizontes ou utopias, conduzem-me a lugares desconhecidos e provocam o abandono do que me serviu de amparo. Essa busca é o que me lança para além do que sou e me emancipa dos projetos que criei ou que criaram pra mim e por mim; me faz grande, me faz mais do que eu sou. Talvez seja em  função desse fracasso de posse, que o anseio de compartilhar o que penso pediu entrada em meu espírito. Hoje, escrever me faz aprofundar o que me causa, o que me completa, o que me faz eu. Produzo o que me produz. Assim como o mito das criaturas andróginas que despertaram o ciúme possessivo de Zeus, nesse atravessamento entre razão e fantasia, me vejo condenada à uma eterna busca pela metade que não encontrei, mas que coloquei no papel. E como se a primeira fosse um imã e a segunda limalha, vejo fundirem-se letras e idéias, imantando de ambas uma tensão recíproca. Não há resistência a essa interseção, apenas uma imprecisão qualquer que ganha formas e contornos.
No curso natural de uma vida, meus rabiscos de infância rapidamente desbotam e logo são revitalizados e substituídos pelos novos contornos de juventude que, em seguida, dão lugar à sutileza embrutecida dos traços mais maduros que observo se apagarem com mais velocidade do que antes. A transitoriedade é sutil, porém perene, como um álbum de fotografias amareladas, guardado dentro da gaveta, ou esquecido em cima da estante em meio aos livros do passado. No interior de cada um de nós, estes outros que não somos mais nós, já nos são estranhas figuras. Morrem e ressuscitam, interpenetram-se e complementam-se na composição do tempo em matéria que, por ser atemporal, faz com que os espectros de ontem se condensem aos de hoje, engendrando uma massa dinâmica de momentos transcritos. À medida que envelhecemos, coabitamos outras eras, que não as do presente.
A marcha do punho, ao longo das páginas, deixa seus rastros, faz meus rastros de vivências e de acontecimentos, demarcando meu território e criando o ambiente propício para aqueles que quiserem chegar. Colonizando meus sonhos encontro sempre o avesso da realidade; fincando minhas raízes me deparo com uma carência de olhos abertos para o que está á sua frente; cavando meu espaço me deparo com uma geografia secreta, que não se governa e que não é conhecida por si mesma, mas somente pelos seus efeitos. Copérnico, Darwin, Kant, Goethe, Freud, e demais senhores e senhoras de estirpe, um dia julgados por seus pensamentos e condenados por seus escritos… Aqui nessas veias corre um sangue subversivo com o mesmo teor que em outros tempos vos animou; sangue de quem se arrisca sem esperar por nada, mas sabe que pode encontrar, sabe lá Deus quando, seja lá o que for. Sangue de quem escreve sem medo, sem a sofreguidão dos que se perderam e sem o desespero daqueles que ainda não se encontraram. Escrevo por gosto, por prazer. Vem leitor, emparelha o teu passo ao meu e vê o que há para ser visto; depois, põe no prato da balança tudo aquilo que lhe cabe.  

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“A minha escola não tem personagem; a minha escola tem gente de verdade… Alguém falou do fim do mundo, o fim do mundo já passou. Vamos começar de novo: um por todos e todos por um! O sistema é mau, mas minha turma é legal; viver é foda, morrer é difícil. (…) Chega de opressão! Quero viver a minha vida em paz…”* – Legião Urbana

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Durante o período de produção do livro Sob a Sombra da Névoa, algumas músicas me acompanharam, como se compusessem a personalidade de cada personagem. Parte destas músicas já foi disponibilizada na página, entretanto decidi pôr aqui aquelas que endossam a trajetória dos personagens mais significativos.

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MÚSICA 1 – CECÍLIA
Cecília Leone é uma órfã criada no convento, que funciona como orfanato para meninas, e que somente um ano após atingir a maioridade deixa o local para trabalhar em seu primeiro emprego: secretária de Raul na estância de gado leiteiro dos Mendonça, do outro lado do lago. Inexperiente e calma, lidar com as pessoas naquela casa, com tantas personalidades diferentes, é um desafio que cresce a cada dia. Em paralelo, enquanto a insegurança por estar ali povoa os pensamentos da jovem, a força por sentir-se desafiada por todas as situações vivenciadas torna-se uma aliada ao seu crescimento. A mudança desponta como uma constante e a vida, de maneira inusitada, se descortina para a jovem a cada página da obra.
A música que acompanha a personagem Cecília é “Encontros e Despedidas”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, cantada por Maria Rita e que de forma subliminar fala muito sobre sua trajetória, disponível AQUI.
MÚSICA 2 – RAUL
Raul Mendonça, filho caçula de Joaquim Mendonça, depois de dezoito anos afastado da propriedade de sua família, em decorrência de uma desavença, está de volta à estância para assumir sua função na administração do gado leiteiro. Trata-se de um homem bonito, de personalidade forte e descontraída, bem mais jovem que Carlos, seu irmão. Seus atos por muitos anos foram considerados rebeldia e foi exatamente esta suposta incongruência que o afastou de casa. Raul trata os empregados de igual para igual, e é extremamente fiel aos amigos, porém, não leva desaforo pra casa, nunca levou. Em sua volta, ele mostra à que veio!
Quando escrevi Raul, apesar do “sangue latino”, herança de seus ancestrais, e tão bem cantado por Ney Matogrosso, a música que acompanhou sua criação foi “Recado”, de Gonzaguinha, disponível AQUI.
MÚSICA 3 – RAMIRO
Ramiro Duarte é funcionário na estância Mendonça. Nasceu e cresceu naquelas terras e, por conta da pouca diferença de idade, é o melhor amigo de Raul. Em ocasião da morte de seu pai, quando tinha apenas 15 anos, ele foi alçado a um alto posto na administração do gado. Bonito e de personalidade forte, assim como Raul, Ramiro também não lida muito bem com injustiças, não leva desaforo pra casa e se não fosse por uma única questão talvez, apesar de amar o local, ele já tivesse deixado aquelas terras.
A música que acompanhou a criação de Ramiro foi “Cavalo Baio”, de Marcus Vianna, em gravação do grupo Sagrado Coração da Terra, disponível AQUI.
MÚSICA 4 – CARLOS
Carlos Mendonça, o filho mais velho de seu Joaquim Mendonça, cuja personalidade em nada se assemelha à personalidade do irmão, responde pelos momentos mais tensos desta história. Trata-se de um homem insuportável, grosseiro e mesquinho, que não respeita as pessoas e julga-se superior à todos os demais mortais.
A música que no meu ponto de vista traduz parte da força, da arrogância e dos receios de Carlos é “Cara Valente”, cantada por Maria Rita e disponível AQUI.
MÚSICA 5 – ESTER
Dona Ester, esposa de Carlos, apesar de ser excessivamente carismática e tranquila, parece carregar a tristeza em seu olhar. Muito provavelmente, trata-se de rusgas colecionadas durante todos aqueles anos de casamento e pela vivência na casa Mendonça.
Sua música é “Entre a Serpente e a Estrela”, de Zé Ramalho, disponível AQUI.
MÚSICA 6 – DONA ROSA
Dona Rosa, empregada aposentada, mas que ainda ocupa um quarto na ala destinada aos funcionários da casa Mendonça, pois sua filha, Martina, trabalha lá como cozinheira. Por já ter passado dos noventa anos de idade, ela já não tem motivo algum para limitar-se e fala aquilo que lhe vem à cabeça. Sem arreios, sem freios e sem medidas, Dona Rosa pode não poupar ninguém!
A música que compõe esta personagem é “Mortal Loucura”, na voz de Maria Bethânia e está disponível AQUI.
MÚSICA 7 – MARTINA
Martina é a filha de Dona Rosa que trabalha na casa há anos e, após a aposentadoria da mãe, assumiu seu posto como cozinheira. Por ter praticamente acompanhado o crescimento de Raul e Ramiro, ela tem cuidado e carinho excessivo com os dois. De personalidade centrada, Martina carrega uma tristeza consigo, uma angústia cuja resposta pode estar em algum canto da casa Mendonça.
A música que acompanhou a criação de Martina foi “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, gravada por Maria Gadu, disponível AQUI.

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