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Archive for the ‘Conto’ Category

Natal Amazon

 

Sinopse:

“Depois de anos economizando e vendendo suas férias para que pudesse juntar dinheiro e realizar um sonho antigo, o grande dia estava prestes a chegar. Kelly enfim viajaria para Nova York e passaria o Natal em meio ao frio e à neve, em cenário semelhante àquele que tanto desejava e sempre vira nos filmes natalinos.

A viagem fora tratada através de uma agência que proporcionava passeios temáticos e a agenda para os dias passados do outro lado do mapa estava devidamente programada. Tudo seria perfeito! Ela só não contava com a presença de Nicolas, o filho da dona da agência, e com um pequeno incidente que poria por terra os seus planos.”

Trata-se de um conto romântico curtinho, para aqueles que buscam por leitura leve, e cheio de referências aos filmes natalinos. Como se não bastasse, o preço é excelente! O ebook está disponível na Amazon e pode ser lido gratuitamente pelos assinantes do serviço Kindle Unlimited. Aproveite o clima da época para mergulhar neste história!

Depoimentos de leitores:

“Lindo demais. Mágico demais. Me fez suspirar várias vezes… Eu amei! ” – IG @shippaesselivro

“Fiquei encantada com a delicadeza de “Um Natal de cinema”! Os filmes, os sonhos da protagonista, os imprevistos que acontecem quando menos esperamos, a magia das decorações, a neve, os espetáculos e espírito natalino; e o amor, ahhhh o amor…” – Autora Edna Nunes

“Precisava terminar antes de dormir! Que gracinha de conto!” – IG @alemda_capa

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Samantha, apesar de sua pouca idade, tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e um salário que fornecia condições de manter um apartamento de cobertura em um dos prédios mais altos de um bairro nobre da cidade. Tudo ali era luxuoso e a mobília moderna e aconchegante esperava por ela a cada final de expediente. Um filme todo final de noite, com pipoca e sorvete, era regra e naquele dia dos namorados, não seria diferente. Ao menos aquele era o seu desejo.

Entretanto, a sorte nunca fora uma boa companheira de Samantha. Se o assunto fosse amor então, a coisa ficava ainda mais complicada. Seu último namorado, por exemplo, morrera anos antes em um acidente de carro, quando era ela quem estava ao volante, fato que lhe causava culpa e dor, além de fazer com que ela evitasse novos relacionamentos ou novas possibilidades que poderiam evoluir para um relacionamento. 

Mesmo em suas vontades mais banais, a sorte insistia em interferir e naquela noite não foi diferente. Samantha optou por deixar o escritório mais cedo e não participar da festa promovida pelos funcionários da empresa para desfrutar da paz de seu apartamento e assistir um filme do Hitchcock ou do Coppola. Porém, ela não contava com uma ocorrência: uma falha elétrica deixaria o prédio inteiro às escuras naquela noite e traria o inesperado para dentro da realidade triste e solitária que ela experimentava por anos a fio.

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O preço é promocional e será mantido até o final deste mês (junho), portanto aproveite! O conto está disponível na Amazon e pode ser lido gratuitamente no Kindle Unlimited.

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ambiente-1400528141840_751x500“Que graça teria a vida se não pudéssemos brincar e fazer troça com a cara dos outros?” Este era quase um lema para Daniela e Camila. Amigas de infância, moravam lado a lado havia anos e, por isto, estavam sempre juntas. Consequentemente e sem que ninguém soubesse, sempre aprontavam alguma estripulia.
Os vizinhos eram os alvos principais das armações das duas amigas que tinham a casa de Daniela como um quartel general. Ela lá que tudo acontecia; era lá que tudo era devidamente pensado e programado. Por trás do portão gradeado ou sobre o muro alto, elas sempre estavam à espreita, aguardando uma oportunidade para perturbar ou sacanear quem se interpusesse à sua frente, mesmo que não houvesse qualquer motivo para tal.
Rosana era uma destas vítimas. Solteirona e estranha, não sossegava dentro de casa. Saía nos momentos mais incertos, quando a rua estava deserta, fosse para ir à padaria, à farmácia, à venda ou, até mesmo, para puxar conversa na casa de alguém. Pra piorar, andava como uma pata, pisando meio torto e rebolando. Era a deixa para Daniela e Camila, que escondiam-se sobre o muro e, a cada passo de Rosana, cada vez que um de seus pés pisava o chão, faziam com a boca sons ocos, que assemelhava-se a peidos ou a quando se pisa sem perceber em bosta de vaca. Isso acontecia quase todos os dias. Rosana sempre ouvia os sons, olhava para trás e buscava ao redor, mas, de tão abobalhada, nunca conseguiu descobrir de onde vinham aqueles barulhos.
Entretanto, as duas amigas nem sempre saíam ilesas das situações que criavam, porém, mesmo quando não se davam muito bem, acabavam por encontrar algum motivo pra rir dos resultados.
Lembravam-se, como se tivesse acabado de acontecer, a ocasião em que amarraram uma nota de valor considerável em um fio de nylon e esconderam-se atrás do portão da casa de Daniela. Duas casas depois, havia uma igreja e o culto daquela noite de domingo estava perto do fim. De certo, alguém passaria por ali e, ao tentar pegar a nota, elas puxariam o fio e a recolheriam, fazendo de bobo o infeliz que acreditava ter se dado bem.
Era preciso se conter para não rir antes da hora e correr o risco de estragar tudo ou serem descobertas! Era preciso atenção para que os pais não surgissem de repente e percebessem toda aquela armação. E assim elas o fizeram. Amarraram a nota, esticaram o fio até o lado de dentro do portão e, por trás das grades, com as luzes apagadas, esperaram ansiosas por um transeunte que, involuntariamente, se tornaria uma próxima vítima de suas brincadeiras de mau gosto.
Foram breves os instantes que se estenderam entre a ‘armadilha’ montada pelas amigas e o término do culto. Atrás do portão, as duas podiam ouvir a movimentação de pessoas que pareciam se despedir do lado de fora. Elas continham o riso, certas de que passariam mais um coitado para trás.
Ao ouvirem a aproximação de passos, direcionaram ainda mais a atenção, prontas para puxar a nota de volta assim que a pessoa, fosse ela quem fosse, fizesse menção de pegá-la. Porém, nem sempre toda a atenção do mundo é suficiente para livrar de problemas aqueles que estão predestinados a encontrá-los; ou para fazer valer as vontades intempestivas de duas jovens que querem tirar vantagens de outras pessoas…
Quem primeiro passou por ali foi o pastor, acompanhado da esposa e filhos e, ao vê-lo se aproximar da nota, Daniela, que segurava o fio de nylon, o puxou com força. Mas o homem não se deu ao trabalho de abaixar-se para pegar a valiosa quantia. Seus pés agiram simultaneamente às mãos de Daniela e ele pisou na nota no exato momento em que ela a puxou, fazendo romper o fio. O pastor foi embora sorridente, levando consigo a paga pela imprudência das duas amigas. Mas, ainda assim, elas não aprenderam absolutamente nada.
— Que graça teria a vida se não pudéssemos brincar e fazer troça com a cara dos outros? – Camila disse pra Daniela, como sempre diziam uma para a outra, após cada armação, fosse esta bem sucedida ou não. E riram, como se o prejuízo monetário não significasse nada.
Alguns dias depois, sem remorso algum pelo dinheiro perdido, elas buscavam algo pra aprontar… A casa de Camila estava em obras e não foi difícil encontrar mais um alvo.
Hildebrando era pedreiro e morava na mesma rua em que elas moravam. Por conta de sua profissão, estava sempre prestando serviços nas redondezas e fora ele o contratado pelo pai de Camila para fazer todo o reboco nos fundos da casa, em parte construída de pouco tempo e que se encontrava ainda inacabada.
—A gente podia sacanear o Debrando!
Era assim que ele era conhecido e Camila viu no homem humilde um alvo fácil!
— Como?! – o interesse de Daniela era evidente.
— Pela janela do quarto dos fundos. Ele está lá atrás, fazendo reboco na fachada do terraço… – Camila parecia já ter tudo muito bem pensado.
— Eu sei! Mas o que a gente pode fazer?
Maquiavélica, Camila explicou seu plano: munida de um gravador, Daniela, cuja voz dificilmente seria identificada por Hildebrando, gravaria um áudio chamando pelo homem e tentando fazer com que ele procurasse pelo chamado. O gravador seria depositado no batente da janela dos fundos da casa de Daniela, já que as casas tinham áreas muito próximas, que quase se comunicavam. Camila voltaria para casa para poder observar a reação do homem sem levantar suspeitas e, discretamente, Daniela acionaria a máquina e correria para espiar pelo basculante do banheiro. As duas teriam visão privilegiada de um bobo buscando por uma voz que o chamava sabe lá Deus de onde. Hildebrando era muito simples e não pensaria tratar-se de uma brincadeira. Certamente ele cairia na armação… Até conversaria com o gravador e as duas teriam bons motivos para rir às custas do pedreiro.
Assim foi feito! Sem que ninguém percebesse, Daniela, trancada em um quarto e sem qualquer interferência sonora externa, com voz mansa, gravou o áudio, usando de frases que viessem a despertar o interesse do homem e estabelecendo pequenas pausas entre estas frases, marcando os momentos onde, em sua imaginação, Hildebrando buscaria pela dona da voz.
Terminada a gravação, discretamente o gravador foi depositado na janela do quarto dos fundos da casa de Daniela.
Aquela tarde estava nublada, o que parecia favorecer o silêncio no local. Hildebrando continuava lá, com um balde de cimento fresco nas mãos, equilibrando-se sobre uma escada velha e fazendo seu trabalho, como era de costume e como a responsabilidade lhe impunha. Camila correu para sua casa e fingindo arrumar os armários, posicionou-se na cozinha, de onde poderia ver o pedreiro e observar sua reação. Passados alguns minutos, Daniela acionou o play e seguiu para o banheiro, subindo em um banco e espiando tudo pelo basculante.
—Oi! – disse a gravação.
O homem movimentou-se levemente e pareceu ouvir, mas não deu nenhuma atenção.
As pausas dadas por Daniela em sua gravação foram perfeitas! Após um breve instante o gravador insistiu:
— Aqui! Eu tô aqui… – e depois de uma breve pausa:—Aqui, Dedê!
Nesse momento, estando Daniela e Camila cada qual em sua casa, foi preciso conter o riso! Nenhuma das duas sabia ao certo de onde Daniela retirara o termo “Dedê”, mas funcionou! A maneira supostamente carinhosa de chamar, enrustida na voz mansa da garota, fez com que Hildebrando demonstrasse mais interesse e procurasse a dona da voz.
—Aqui, Dedê. Não consegue me ver? – disse o gravador, estabelecendo em seguida mais uma breve pausa.
Hildebrando procurava. Era clara a curiosidade do homem! Ele olhava para cima, olhava para baixo, olhava ao redor… Suas sobrancelhas arqueadas revelavam a estranheza de ser chamado por uma desconhecida. Seus olhos curiosos percorriam tudo, procurando sofregamente por alguém.
— Dedê… Dedêêê… Eu tô aqui. Tô te vendo… Olha pra cá…
A cada frase impostada pelo gravador, a tensão de Hildebrando parecia aumentar, assim como a vontade de encontrar quem o chamava e como a necessidade de Daniela e Camila de conter o riso.
— Ah, Dedê… Olha pra cá… Aqui ó… Tô aqui, Dedê… Tô daqui, te olhando faz um tempão…
Camila espiava da cozinha e Daniela se mantinha atrás do basculante do banheiro, sem ser notada pelo homem que, afoito, buscava pela voz. Hildebrando já não se continha mais. Olhava tudo enquanto tentava manter o balde de cimento nas mãos. Revirava-se na escada, retorcia-se para um lado e para o outro em tentativas vãs de enxergar alguém que não estava ali, enquanto o gravador o instigava sem cessar.
E, se a escada de madeira onde o homem equilibrava-se não estivesse velha e gasta pelo tempo, ele teria sido foco das risadas de Daniela e Camila por semanas. A escada cedeu e Hildebrando, ainda segurando um balde cheio de cimento, despencou de uma altura de quase três metros. Morreu com o crânio estourado no chão da área dos fundos da casa de Camila. As duas, cada qual em seu posto, presenciaram  queda e morte do pedreiro.
Veio polícia, veio perícia… Acidente de trabalho, constataram. A esposa do homem entrou em desespero. Seus filhos também. A vizinhança ficou em polvorosa com aquela desgraça. Um homem justo e trabalhador, que sempre fizera tudo certo, em um deslize acaba morto durante o trabalho.
O gravador fora muito bem guardado, a fita cassete apagada; não havia rastros, nada que incriminasse ou levantasse qualquer suspeita sobre Daniela e Camila.
Hildebrando foi enterrado dois dias depois, após autópsia e liberação do corpo. Acompanhadas de seus pais, as amigas, sem culpa ou qualquer sentimento semelhante, acompanharam o cortejo até a sepultura, apenas trocando breves olhares que passaram despercebidos mediante a consternação de todos os demais presentes. Não derramaram uma lágrima. Não demonstraram qualquer comoção. Não se intimidaram nem mesmo com o desespero da viúva.
Naquela noite, na varanda da casa de Daniela, um pacto foi selado:
— Ninguém pode saber o que realmente aconteceu, entendeu, Daniela? – dizia Camila. E completava: —Não deu muito certo, eu sei… Mas que graça teria a vida se não pudéssemos fazer troça com a cara dos outros?
— Eu sei. A vida não teria graça nenhuma… E, quanto a gravação… Ah! Nem mesmo o morto sabia. Morreu sem saber que éramos nós duas que estávamos sacaneando ele… Morreu como o bobo que sempre foi. É só a gente não comentar com ninguém.
—Pois é! Não comentar nunca com ninguém… – Camila deu ênfase ao advérbio. — Não tem como descobrirem… Só nós sabíamos!
— Só nós duas!… – repetiu Daniela, sem remorso.
— Ninguém sabe o que motivou a morte do Debrando e nunca ninguém saberá. Ele morreu e ponto final.
E, passado alguns minutos de conversa entre as duas amigas,  como se os ponteiros do relógio tivessem pressa em encerrar aquele dia fúnebre, chegou a hora de Camila voltar para sua casa. Era tarde e, no dia seguinte, ambas teriam aula logo cedo.
Deitada em sua cama, Daniela não conseguia dormir. Era assim desde a morte do pedreiro: o sono custava a chegar e ela passava parte da noite em claro. Ela imaginou que tudo fosse melhorar após o enterro, mas havia algo no ar que insistia em lhe tirar o sossego na hora de dormir. Camila nada comentou com a amiga, mas também não conseguia pegar no sono com facilidade. Desde o suposto acidente, dormir era quase uma tormenta… Uma tormenta que piorou naquela madrugada.
— Oi! – disse uma voz de homem no quarto de Camila.
Certa de que ouvia coisas, a jovem fechou os olhos e virou-se para o outro lado. Mas a voz, após uma breve pausa, insistiu:
—Eu tô aqui! Você não me vê?
A situação na casa ao lado, no quarto de Daniela, não era diferente:
— Aqui! Eu tô bem aqui, Dani… – ecoou no quarto, fazendo com que a garota gelasse de susto.
—Ah, Cami! Olha pra cá… – a voz insistia no quarto de Camila.
Em seu quarto, diferente de Camila que virou para o lado e fechou os olhos, Daniela, procurava pela voz.
— Aqui! Bem aqui! Não consegue me ver?… – dizia sem parar.
E simultaneamente, no quarto de Camila e no quarto de Daniela, em tom assustador e acompanhada de um vento gelado, a voz de homem perguntou:
— Que graça teria a morte se não pudéssemos voltar e fazer troça com a cara dos outros?

 

***

 

 

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Batente da Porta

ft-fazenda2Tinha pena daqueles que não sabiam cozinhar. Sempre teve. Era triste saber que estes nunca desfrutaram dos planos que se faz ao mexer uma panela de pirão ou ao esperar um assado pedir pra sair do forno. Tantos eram os pensamentos embalados pela mescla de aromas de uma cozinha bem vivida e pela quentura de suas memórias; sonhos que podem brotar e crescer no fervilhar de um caldeirão de sopa.

Cresceu na soleira de uma cozinha pequena com paredes de barro vazado, localizada nos fundos da casa, quase do lado de fora. Sentada no batente da porta quando pequena, todos os dias ouvia as histórias contadas pela avó enquanto cozinhava. Eram conversas que não tinham fim, conversas que emendavam almoço e janta, emendavam um dia no outro; que traziam de volta os vultos que ela sequer pudera conhecer ainda frescos, com cheiro de café passado na hora. Eram sonhos, que começavam logo cedo, antes da lida dos homens, e seguiam noite adentro. Histórias que atribuíam significados a cada lanho nas panelas de barro, a cada cicatriz das canecas de esmalte barato e que, junto aos caldos e mingaus da avó, a fizeram crescer mais forte, mais preparada para o que viesse da vida. E muita coisa veio.

De tempo em tempo, vinha um ou outro viajante, fosse parente distante ou desconhecido fazendo passagem. Casa de roça na beira da estrada era assim: passava peão, caixeiro viajante e vigário migrando de paróquia, e à todos eles de nada custava um chá de erva colhida com um pedaço de bolo de milho. De noite, do lado de fora, chá mate e uma fogueira pra afugentar o frio dos mais velhos e fazer sossegar as crianças, que não eram poucas.

Conforme a mocidade foi chegando e os meninos puderam sair pra lida, dedicou-se às prendas da avó.  Cozinhar era o que lhe sobrava naquelas terras de araucária… Era ver um dia sucedendo o outro, por entre o bafo das panelas que fervilhavam em cima do fogão. Café, almoço e janta… Café, almoço e janta… Café, almoço e janta,num ciclo feliz e rotineiro de quem tinha os pés no chão e a cabeça num porvir qualquer que não lhe pertencia.

Viu o tempo passar e muita gente deixar a roça pra ganhar cidade além do sul. Viu a eletricidade chegar sem pressa naqueles confins. Viu a mãe herdar o fogão da avó e, com mais algum tempo que passou, se viu recebendo de herança o mesmo fogão pra continuar alimentando as bocas que por ali passassem, fossem vindas do plantio ou da colheita, fossem varadas de fome ou exaustas de cansaço. Viu lhe chegar um marido cheirando a cachaça, trazido pelo irmão mais velho que insistia em ter pena de seu destino. Viu chegarem os três filhos: dois meninos pra ajudar o pai, e uma menina pra sentar no batente da porta da cozinha e ouvir suas histórias. Viu os três crescerem fortes e tomarem seus rumos na vida. Viu sua mão calejar, os fios brancos brotarem nas suas têmporas e sua pele enrugar… E sem arrependimento da vida que foi sua, nem dos dias passados no batente da porta da cozinha ou das noites ao redor da figueira, um dia, em oração, pediu ao Pai uma morte tranquila.

Assim foi. Quando a senhora de todos os destinos percebeu que seu tempo estava no fim, começou a rondar a casa e esperou que, entre o preparo de uma refeição e outra, ela se sentasse para descansar no batente da porta da cozinha. E a morte então chegou, alumiando a porta, com  a candura da avó, impregnada do cheiro da avó, e com voz tão mansa quanto aquela que lhe contava histórias: “Vem, fia, que já é hora…” Ela levantou a cabeça e, com olhar cansado, sorriu de leve e lhe estendeu as mãos.

***

Se você gostou ou se identificou com este texto, leia também: Lá na Roça.

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No sobrado simples de dois andares e paredes caiadas pelo tempo, a velha na varanda olhava pra ontem. As marcas cruéis que ornamentavam o imóvel pareciam distorcer as perspectivas de quem via passar na esquina momentos que já não eram mais seus. As cicatrizes expostas pela falta de cuidados pareciam não cicatrizar. A velha não chorava, não se lamentava; apenas digeria aquela realidade diferente, enquanto o vento sacudia as arestas de madeira que despregavam-se do forro, arredando a poeira que ainda lhe fazia companhia. Talvez, depois que ela partisse somente o sobradinho ficasse como prova das histórias passadas… As paredes ainda estariam lá, a varanda estaria lá; a velha, não mais… 

As memórias a lançavam aos áureos anos onde o sobradinho ainda encantava quem passava por aquelas calçadas; em contrapartida, o agora era só comoção ou desprezo por ver na varanda uma velha solitária, desprovida de defesas e repleta do que passou. Tempos áureos esses onde o sobradinho parecia destacar-se imponente na rua de ladeira e paralelepípedos, apontando mais uma encruzilhada no destino de muitos. Tempos áureos das comemorações no centro da cidade, dos discursos revolucionários de jovens que acreditavam poder consertar o mundo, das batalhas militares perdidas pelos mais bravos soldados. Tempos áureos de tudo que a velha viu, tudo que a velha viveu, tudo que a velha cresceu pra depois minguar dentro do sobradinho.

Na solidão da moradia, as paredes amigas eram presença certa. O ranger das portas era cantoria gregoriana que a acompanhava no transitar pelos cômodos desocupados. Na cozinha, uma geladeira antiga e um fogão quase sem função. No vazio da varanda gasta, a imensidão se mostrava diariamente, noturnamente, eternamente. A saudade era ilimitada no vão do quarteirão que seus olhos ainda miravam. Mas mesmo assim a velha não se lamentava. Ela era o que viveu naquilo que ainda vivia. Era uma velha, num sobradinho velho de dois andares e paredes caiadas pelo tempo.

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Depois de engolir poeira pela estrada ele enfim chegava a casa onde fora criado. A vizinhança parecia a mesma, as roupas sacudiam ao vento no varal e o cão cochilava no batente da porta. Não o mesmo cão que corria com ele naquele quintal durante a meninice; esse já havia dobrado o cabo da boa esperança há tempos… Outro cão! Um vira-latas negro, de porte grande e ronco ativo de cão preguiçoso.

Na varanda rodeada de vasos de rosas vermelhas e miúdas, o balanço de ferro trazia consigo a lembrança dos namoros de final de tarde, onde ele e os amigos, por muitas vezes, beijavam escondido e descobriam as incertezas de vida amorosa. Sobre a porta de entrada a placa ‘bem vindo’ parecia corroída por cupins e uma mariposa estacionada no cantinho lembrava que aquilo era interior. Ele quase não via mariposas na cidade!

Lá de fora se ouviam as lamentações abafadas das comadres e compadres da vizinhança que, seguiam  a tradição  e ‘bebiam a defunta’. O choro curtinho e ininterrupto apontava mais incertezas. Porque ele havia passado tanto tempo afastado? Porque esperou tanto para retornar, adiando sempre sua chegada para o próximo final de ano, chegada essa que nunca acontecia. Ele sabia que ela não poderia esperá-lo para sempre. Sabia que o tempo, assim como os cupins na placa sobre a porta, corroia as pessoas e levava delas o melhor: a vida. Faltou-lhe coragem pra entrar.

Sentou-se no balanço da varanda, balançando ao som do ronco do cão e das lamentações que ecoavam lá dentro; lá dentro da sala, lá dentro dele… O coração queria transbordar, como se a culpa não encontra-se mais espaço pra crescer. Ela se foi depois de tanto esperar por sua visita. Ele veio quando já não havia mais tempo. As horas se passaram e como num sonho, reviveu, ali naquela varanda, os tempos de moleque. Em pequenos flashes embaçados as estripulias da infância voltavam gradativamente à memória… Comer manga trepado na árvore, o banho no riacho com os amigos que o julgavam inseparável, o cheiro da broa de milho assando no forno de lenha, a procissão de beatas na Sexta Feira da Paixão, os esporros que tomava quando, catando vaga-lume no mato, passava da hora de jantar… Sem saber ao certo depois de quanto tempo, foi despertado pelo rangido da porta que se abria.

Porta que se abria dando passagem ao cortejo de senhoras todas com véu sobre a cabeça, e de homens, todos segurando um chapéu de palha sobre o peito. Na outra mão carregavam cada um deles uma alça do caixão barato, que seria corroído também, e onde dentro descansava o corpo de sua avó. As comadres sussurravam a Ave Maria, os comprades, cabeça abaixa, caminhavam sérios, a passos lentos. Eles carregariam um caixão até a cova; ele carregaria culpa e remorso por toda a vida. O cortejo acordou o cachorro, que levantou-se e seguiu junto.

Sentado no balanço ele acompanhava com olhar vago. Ela ia, depois de tanto esperar por ele. O cão, fiel até o último momento, a acompanhava. Talvez aquele cão tivesse mais direitos que ele, talvez até sentisse mais que ele, afinal se manteve fiel a ela. Chorou pela ausência da avó e pela solidão que o cão teria de suportar. Chorou pela solidão da avó esquecida por anos naquela casa de campo.

Ficou no balanço. Não acompanharia o cortejo. Não iria ao enterro. Sepultar a avó seria jogar pás de terra sobre seu passado e ele não permitiria isso. Da varanda, corroído pelo tempo, que ele mesmo deixou passar, e pela culpa que o consumia, assistiu um cão sem culpa que guiava sua dona até a última morada…

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Texto relançado, publicado originalmente em Janeiro de 2011.

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Construtor

Sabia que dificilmente arranjaria emprego, mas sempre catava trabalho. Nos dias em que em que a sorte lhe sorria e havia oportunidade, trabalhava; nas noites em que a fome permitia, dormia. Analfabeto de pai e mãe carregava nas costas o peso de uma infância dura, o fardo de uma vida desletrada. Conhecia somente a realidade da pá de areia, dos sacos de cimento e das pilhas de tijolos que, assim como ele, torravam no sol a pino. E vivia um dia de cada de vez, pensava uma coisa de cada vez debaixo de cada edifício que ajudava a erguer.

Dos tempos passados, saudosamente guardava a lembrança de querer ser doutor. Cada vez que falava isso, dizia sua mãe: ‘larga de bobiça menino! vontade é coisa que dá e passa…’ Ela estava certa, sempre esteve. Passou. Passou no dia em que se viu com sede, sem água pra beber ou qualquer coisa que servisse pra forrar o estômago no final de uma tarde. Lembrava da cena como se um filme lhe tomasse o pensamento: na casa de sapê, a mãe sentada na soleira da porta, buchuda de mais um menino, ele, aos sete anos de idade, com os três irmãos mais novos, esperando pela chegada do pai. E o pai só foi chegar quando já era noite fechada, com um cigarrinho de palha pendurado no canto da boca e uma garrafa de pinga pela mão. Olhou de olho virado pros filhos, sorriu desdentado pra mulher. O sonho do diploma ficou ali, na soleira daquela porta. Descobriu que precisava trabalhar se quisesse comer, se quisesse que os irmãos comessem e se quisesse alimentar a mãe e o menino que ela carregava.

Achou trabalho. Foi ser na roça aquilo que a incompetência e o vício não permitiam que seu pai fosse dentro de casa: um pequeno homem. Com o dinheiro da lida levava o leite dos irmãos, feijão preto e umas bananas pra fortificar. Não fez fortuna, não estudou; muito aprendeu. Comprava comida e alimentava com gosto aqueles que, até então, passavam fome com ele. Na lavoura viu passarem-se os anos e quando a cidade tomou o campo ele, já crescido, encarou a edificação. Foi levantar casas e construir os sonhos daqueles que podiam sonhar.

Na construção a vida não era fácil. Estava sempre sujo do pó de brita e entortado pelos sacos de cimento que carregava nas costas. O dinheiro que entrava saía no mesmo pé; não rendia. Nas mãos, além de calos e fissuras, carregava uma grande história que pra muitos olhos poderia parecer pequena. Foi muito no pouco que pode oferecer. Era a pintura clássica do sujeito comum que, sem delírios de grandeza, mas de maneira singela abdicou do que não tinha, abdicou das faltas que constantemente vivenciava, para virar o jogo e fazer a diferença para os seus. E fez!

Naqueles anos todos, desde que começou a trabalhar, criou os irmãos e viu nascer o caçula da prole sem nenhum traço de desnutrição. Quando o pai morreu, lhe deu sem mágoas um enterro digno, com flores e cortejo. Conseguiu água encanada e luz elétrica pro casebre; conseguiu, vez por ano, presentear os mais novos em cada Natal; conseguiu fazer com que outros olhinhos pudessem brilhar. Com o passar dos anos viu cada irmão seguir seu destino. Suprimiu algumas vontades em prol de outras vontades que somente ele pode fazer com que valessem a pena, somente ele pode realizar. Mesmo depois de tanto tempo, depois de tantos feitos, quando encostava em um monte de areia da construção pra refazer-se depois do almoço, arriscava sonhar algum sonho só seu… Despertava com a voz da mãe, já velhinha, ecoando dentro dele: ‘larga de bobiça, menino!…’ E retomava o trabalho, com sorriso largo estampado na fuça, pois sabia que sua vida era de construção: construiu lavouras, construiu os sonhos dos seus e os sonhos de outros. Construía os sonhos daqueles que podiam sonhar e, sem saber, sem sequer ter sonhado isso, realizava-se ao descobrir-se essencial pra tanta gente. Não nutria nenhum arrependimento. Sabia que quando o tempo chegasse, senhor esse de todos os destinos, o seu destino teria sido cumprido,  farto das possibilidades que criou no tanto que viveu.

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