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Archive for the ‘Homenagem’ Category

MENINA E MULHER – um paradoxo

Ela caminha misteriosa por seus pensamentos vagos… Caminha por tudo o que já veio e por tudo o que se foi, por tudo o que viu acontecer. Quantos sonhos desfeitos, quantos devaneios, quantas ilusões! As ansiedades de mulher mescladas às angústias da menina que foi sem deixar de ser. Ela viveu…

Como se um filme noir lhe passasse à frente, ela estanca e assiste cena por cena. Desde o beijo avassalador ao fio puxado na meia de seda. Sobem os créditos. Ela chora abraçada à sua boneca de pano… Tanto tempo passado, sonhos roubados e caídos por terra! São dores de mulher em reflexos  de menina; são dores de menina parodiando a mulher que se formou. Ela cresceu…

No corpo formado trás as curvas delineadas da mulher que é. No rosto trás as marcas que o tempo se encarregou de imprimir e uma expressão saudosista trazida de outrora. Nos  olhos trás ainda as sobras do brilho deixado pelos devaneios, pelas gargalhadas rasgadas que a menina  lhe ensinou. Na pele trás as marcas registradas de um amor perdido. No ventre trás a saudade de alguém a quem já abrigou e com quem descobriu a felicidade. Nas mãos trás as fendas impostas pelas obrigações do dia a dia. Nos ombros trás o fardo subjugado das condenações e dos pecados. Nos pés trás os calos de quem muito caminhou pra não chegar. No peito trás as mágoas, os sentimentos, os tormentos; um coração amarrotado de mulher. Na certidão trás nome de santa, nome de puta; substantivo próprio extremamente  feminino…  Mas ela ainda consegue ser mais do que isso, mesmo sendo somente isso… Mais menina e mais mulher! Ela venceu…

Se recorda precisamente do homem de olhos encantados que se fez mais homem e mais humano em suas mãos. Depois se fez rato, e a fez trapo. A fez de gato e sapato… O mesmo homem que cresceu com seus ensinamentos de mulher e sua liberdade de menina. O mesmo homem que fez de seu espaço um espaço somente seu, descartando sonhos, matando esperanças e transformando o possível em impossível. E desapareceu deixando um rastro de porquês sem respostas. Ela sofreu…

Tantas meninas em uma face de mulher madura. Tantas mulheres em uma alma de menina… Tantas figuras que o sonho fez florescer e a realidade fez crescer abruptamente! Tantas verdades a serem ditas e que foram caladas pelas idas e vindas do tempo que se fez… Tantas feridas, tantos algozes, tantas injúrias e intrigas a ela direcionadas… São tantas ‘tantas’ que nem ela sabe ao certo quantas!

Ela se recorda… Em muitos momentos ela é só recordação! Talvez porque, mesmo não oferecendo quase nada, o passado ainda lhe ofereça mais refúgio do que esse futuro turvo que se descortina. E refúgio quente, com cheiro de colo e gosto de saudade. Ela, às vezes, também é só saudade! E é tanta saudade junta que ela  se recolhe.  Se esconde num canto escuro do porão das lembranças guardadas para ir de encontro à menina que um dia foi e com ela comemorar, montada na cauda de um foguete, sua meninice perdida e achada numa traquinagem qualquer.

Ela é só uma menina que quer ser uma mulher… Ela é só uma mulher que não quer mais ser uma menina…  Ela é uma pequena menina com alma de mulher… Mas, acima de tudo, é uma grande mulher com alma de menina!

 

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Este artigo foi originalmente publicado em Novembro de 2010 neste mesmo espaço, e eu decidi trazê-lo à tona novamente pelo dia 08 de Março,  Dia Internacional da Mulher.

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SOB OS OLHOS DO CRISTO

Sob os olhos do Cristo sobrevive minha cidade. Não sei se continua linda ao longo de seus 446 anos…

Os braços, ainda abertos aos visitantes que chegam, já não carregam mais a força que outrora resplandecia sobre a Guanabara; as águas, em contraste com o calçadão simétrico em branco e preto, já não sustentam o azul transparente de tempos atrás. A terra do samba, da mulata e do futebol, transformou-se na terra do funk, da loura oxigenada e da bolada nas costas. As crianças que à tardinha brincavam nas calçadas de casa após voltar do colégio, não vão mais ao colégio e brincam de malabarismo nos sinais de trânsito em pleno sol de meio dia. Malabarismos de uma vida carioca e sofrida…

Os Arcos da Lapa se envergam para servir de abrigo aos mais carentes de sonhos. O Pão de Açúcar parece salgado aos olhos de quem já o conhecia. As Garotas de Ipanema esconderam-se atrás de suas próprias bundas; e, se “ela é carioca’, cadê o “jeitinho dela andar”? Na Rua do Ouvidor, um mendigo a cada esquina, implorando por esmola e pedindo pra ser ouvido. Como reflexo da irresponsabilidade, as Águas de Março surgem quando menos se espera, arrasando um pouco da beleza que sobrou. Sentado na beira da praia, Druommond pensa onde foi parar o sabiá de Gonçalves Dias, que cantava também por aqui e quase já não canta mais; enquanto na esquina da Vinte e Oito de Setembro, em sua mesa de bar, Noel observa o trânsito infernal que assola a cidade.

A região, fundada por Estácio de Sá, se afunda em drogas e sofrimento no Morro do Estácio. Os fogos do Reveillon misturam-se aos tiros de Ar-15. O Maracanã, por diversas vezes, serviu como ringue de luta das torcidas organizadas. A Igreja da Penha, depois de acolher tantas preces, foi esconderijo para a ladainha imposta pela bandidagem e a Voz do Morro tenta se fazer valer no Vidigal. Aos pés da Candelária meninos dormem sem saber se terão direito de despertar. O Galeão sobrevive, encoberto pela sombra da favelização. Do Leme ao Pontal passa o arrastão. A Praia Vermelha mostra-se cada vez mais negra de ilusões. No Morro do Adeus uma mãe dá adeus ao filho inocente e trabalhador, morto em troca de tiros dos traficantes.  Até na Barra da Tijuca a barra está bem pesada…

Nas filas do desemprego, o carioca espera pelo ‘Trem Pras Estrelas’ de Cazuza, sem conhecer o fato de estarem ainda acorrentados e fadados aos antigos navios negreiros… Nas filas do restaurante popular, o povo espera para saciar a fome de uma semana inteira com apenas um real, sem conhecer a luta de Betinho… Nas filas dos ônibus há ainda quem tema pegar o 174 no sentido Gávea… Nas filas dos bancos, à duras penas, espera o aposentado pelo mínimo salário que lhe cabe… Nas filas alfandegárias, mediante um trocado por baixo dos panos, o contrabando segue rumo ao Camelódromo, onde ainda impera a pirataria… Nas filas dos supermercados a população se queixa do aumento abusivo no preço das verduras devido a promessas meteorológicas… Nas filas dos hospitais os doentes carimbam seu passaporte pro céu.

Infelizmente, nessa terra, foge a polícia do bandido, foge o cidadão da polícia; resultado das muitas fugas exercidas pelos poderes que deveriam vigorar. Foge a comida da mesa, foge o lazer, foge a educação, foge a alegria, fogem os direitos garantidos por lei, foge a saúde. Só o que não foge é a crença dessa gente guerreira em dias melhores…

Onde foram parar os encantos mil da Cidade Maravilhosa, tão bem retratados nas imagens amareladas do começo do século passado? Onde se escondeu a boemia sadia do carioca e o sorriso sincero desse povo? Cadê o encanto brejeiro das mulheres de outras décadas? Quem roubou do Rio de Janeiro a poesia musicalizada em suas calçadas deixando somente a miséria de suas vielas?

Alterando um pouco as palavras do Poeta Tom Jobim, posso dizer que minha alma ainda canta e esse texto é só porque, Rio eu gosto de você e ainda acredito na possibilidade de um dia te ver diferente; mas muitas vezes pra mim, é como se lá de cima ao abençoar, o Cristo olhasse e dissesse: “Perdoai, Pai, eles não sabem o que fazem.”

 

 

*Pelos 446 anos da Fundação da Cidade do Rio de Janeiro, comemorados em 01 de Março de 2011.

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CINE-GRAFIA

O mundo é CAOS!

Me diga COMO SER UM MILIONÁRIO e eu te aponto O PRÍNCIPE DOS LADRÕES. Acredite fielmente na BELEZA AMERICANA somente hoje, pois até mesmo ela, algum dia será UM CORPO QUE CAI, seja da BONEQUINHA DE LUXO ou da RAINHA DO DESERTO.

Somos o que sobrou do PECADO ORIGINAL! Talvez, nesse mundo em que vivemos hoje sejamos simples reflexos das LUZES DA RIBALTA, enquanto não chega o FIM DOS TEMPOS. Talvez sejamos O GAROTO, nessa realidade onde INIMIGOS PÚBLICOS podem mostrar O MISTÉRIO DA ESTRELA. Em meio a essa aparente desconexão, seguimos todos VIVOS, indiferentes ao que dizem OS OUTROS, irreverentes, CANTANDO NA CHUVA. Às vezes, QUANTO MAIS IDIOTA MELHOR!…

Muitos de nós alimentou seu sonho E O VENTO LEVOU… Lutamos muito e mais, como em uma MISSÃO IMPOSSÍVEL, para mantermos sempre aceso o BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS. Já fomos ORGULHO E PRECONCEITO, DESEJO E REPARAÇÃO, e isso independe de SEXTO SENTIDO, ou IDENTIDADE, ou INFIDELIDADE aos padrões que estabeleceram pra nós. Crescemos nesse ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, presos e atados a uma constante ERA DO GELO. PUTZ! A COISA TÀ FEIA! Então, já que não dá pra mudar tudo num CLICK… CORRA, LOLA, CORRA…

Não. EU não SOU A LENDA! Você, certamente, não é O ILUMINADO… Mas isso tudo aqui pode perfeitamente ser encarado como O APOCALIPSE. Enquanto passam AS HORAS, ficamos todos nós nessa JANELA INDISCRETA, esperando por alguma PROFECIA que nos alivie esse PESADELO. Não formamos nenhuma CORRENTE DO BEM, mas acreditamos ainda em UM ANO BOM, um ANO EM QUE FAREMOS CONTATO ou fará sentido. Sem PSICOSE! Sem PARANÓIA…  Uma RECONQUISTA talvez de tudo aquilo que poderíamos ter sido… Algum SONHO DISTANTE! Ou, até mesmo A ESPERA DE UM MILAGRE… De repente ele até chega! Não diziam por aí que DEUS É BRASILEIRO? E SE FOSSE VERDADE?!

Somos humanos! Uns seguem EM BUSCA DA FELICIDADE, enquanto outros somente aprendem COMO TREINAR SEU DRAGÃO. Somos EVOLUÇÃO! Somos o livro na mala que carrega O CONTADOR DE HISTÓRIAS… Vivemos cada dia COMO SE FOSSE A PRIMEIRA VEZ, ENCURRALADOS o tempo todo nessa VIAGEM INSÓLITA. Você se sente um NÁUFRAGO do seu TITANIC ou do POSEIDON de alguém? CONTA COMIGO! Afinal de contas, A ESTRADA é mesmo uma só e O AMANHÃ NUNCA MORRE, apesar de deixar traçado um MORTAL COMBATE a cada DIA DE FÚRIA.

Atravessamos constantemente nossas PONTEs, sejam DE MADISON, DO RIO KWAI ou PARA TERABÍTIA e partimos no VOO DA PHENIX. Somos O ILUSIONISTA em cada GRANDE TRUQUE que a vida nos exige. Somos O PIANISTA de uma nota só, compondo suas LENDAS DA PAIXÃO (VEM DANÇAR COMIGO?…). Somos CASA DE AREIA E NÉVOA fincada em TERRA FRIA…  Somos O GRITO!

Somos pessoas! Somos HOMEM DE FAMÍLIA, HOMEM DE FERRO, HOMENS DE HONRA. Somos ADORÁVEIS MULHERES e MENINAS MALVADAS… MENINA DE OURO! Cada uma de nós UMA LINDA MULHER, mesmo em um AMARGO REGRESSO.  Todos sem MASCARA nesse terrível DESFILADEIRO, CURTINDO A VIDA ADOIDADO ou ATORMENTADOS… Somos PREDADORES de nós mesmos nesse redundante e constante TRIÂNGULO DO MEDO, nesse ESTRANHO MUNDO DE JACK, nessa ILHA. Somos PASSAGEIROS em VOO NOTURNO a cada AMOR SEM ESCALAS; somos TURISTAS sem ALBERGUE, TOTALMENTE SEM RUMO, nessa VERDADE NUA E CRUA das ARMADILHAS DO CORAÇÃO!

Somos A GRANDE ILUSÃO que segue, SEM RESERVAS, em rumo certo e preciso DE VOLTA PARA O FUTURO que se escondeu EM ALGUM LUGAR DO PASSADO. Somos uma LEGIÃO de VIDAS EM JOGO, sobrevivendo, VELOZES E FURIOSOS, a DIAS SELVAGENS, a RUAS DE FOGO, nessa desconjuntada LINHA DO TEMPO.

Somos FILHOS DA ESPERANÇA!

Exatamente há um ano atrás, eu, mera observadora e tiete desse espetáculo, fiz uma pergunta e não obtive resposta. Torno a fazê-la então… Se A LIBERDADE É AZUL, A IGUALDADE É BRANCA, e A FRATERNIDADE É VERMELHA, me diz qual é a cor da felicidade, Kieslowski?!

 

 

 

*Obs: Que nessa vida, sejamos todos merecedores do Oscar de Melhor Roteiro Original.

 

 

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