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ambiente-1400528141840_751x500“Que graça teria a vida se não pudéssemos brincar e fazer troça com a cara dos outros?” Este era quase um lema para Daniela e Camila. Amigas de infância, moravam lado a lado havia anos e, por isto, estavam sempre juntas. Consequentemente e sem que ninguém soubesse, sempre aprontavam alguma estripulia.
Os vizinhos eram os alvos principais das armações das duas amigas que tinham a casa de Daniela como um quartel general. Ela lá que tudo acontecia; era lá que tudo era devidamente pensado e programado. Por trás do portão gradeado ou sobre o muro alto, elas sempre estavam à espreita, aguardando uma oportunidade para perturbar ou sacanear quem se interpusesse à sua frente, mesmo que não houvesse qualquer motivo para tal.
Rosana era uma destas vítimas. Solteirona e estranha, não sossegava dentro de casa. Saía nos momentos mais incertos, quando a rua estava deserta, fosse para ir à padaria, à farmácia, à venda ou, até mesmo, para puxar conversa na casa de alguém. Pra piorar, andava como uma pata, pisando meio torto e rebolando. Era a deixa para Daniela e Camila, que escondiam-se sobre o muro e, a cada passo de Rosana, cada vez que um de seus pés pisava o chão, faziam com a boca sons ocos, que assemelhava-se a peidos ou a quando se pisa sem perceber em bosta de vaca. Isso acontecia quase todos os dias. Rosana sempre ouvia os sons, olhava para trás e buscava ao redor, mas, de tão abobalhada, nunca conseguiu descobrir de onde vinham aqueles barulhos.
Entretanto, as duas amigas nem sempre saíam ilesas das situações que criavam, porém, mesmo quando não se davam muito bem, acabavam por encontrar algum motivo pra rir dos resultados.
Lembravam-se, como se tivesse acabado de acontecer, a ocasião em que amarraram uma nota de valor considerável em um fio de nylon e esconderam-se atrás do portão da casa de Daniela. Duas casas depois, havia uma igreja e o culto daquela noite de domingo estava perto do fim. De certo, alguém passaria por ali e, ao tentar pegar a nota, elas puxariam o fio e a recolheriam, fazendo de bobo o infeliz que acreditava ter se dado bem.
Era preciso se conter para não rir antes da hora e correr o risco de estragar tudo ou serem descobertas! Era preciso atenção para que os pais não surgissem de repente e percebessem toda aquela armação. E assim elas o fizeram. Amarraram a nota, esticaram o fio até o lado de dentro do portão e, por trás das grades, com as luzes apagadas, esperaram ansiosas por um transeunte que, involuntariamente, se tornaria uma próxima vítima de suas brincadeiras de mau gosto.
Foram breves os instantes que se estenderam entre a ‘armadilha’ montada pelas amigas e o término do culto. Atrás do portão, as duas podiam ouvir a movimentação de pessoas que pareciam se despedir do lado de fora. Elas continham o riso, certas de que passariam mais um coitado para trás.
Ao ouvirem a aproximação de passos, direcionaram ainda mais a atenção, prontas para puxar a nota de volta assim que a pessoa, fosse ela quem fosse, fizesse menção de pegá-la. Porém, nem sempre toda a atenção do mundo é suficiente para livrar de problemas aqueles que estão predestinados a encontrá-los; ou para fazer valer as vontades intempestivas de duas jovens que querem tirar vantagens de outras pessoas…
Quem primeiro passou por ali foi o pastor, acompanhado da esposa e filhos e, ao vê-lo se aproximar da nota, Daniela, que segurava o fio de nylon, o puxou com força. Mas o homem não se deu ao trabalho de abaixar-se para pegar a valiosa quantia. Seus pés agiram simultaneamente às mãos de Daniela e ele pisou na nota no exato momento em que ela a puxou, fazendo romper o fio. O pastor foi embora sorridente, levando consigo a paga pela imprudência das duas amigas. Mas, ainda assim, elas não aprenderam absolutamente nada.
— Que graça teria a vida se não pudéssemos brincar e fazer troça com a cara dos outros? – Camila disse pra Daniela, como sempre diziam uma para a outra, após cada armação, fosse esta bem sucedida ou não. E riram, como se o prejuízo monetário não significasse nada.
Alguns dias depois, sem remorso algum pelo dinheiro perdido, elas buscavam algo pra aprontar… A casa de Camila estava em obras e não foi difícil encontrar mais um alvo.
Hildebrando era pedreiro e morava na mesma rua em que elas moravam. Por conta de sua profissão, estava sempre prestando serviços nas redondezas e fora ele o contratado pelo pai de Camila para fazer todo o reboco nos fundos da casa, em parte construída de pouco tempo e que se encontrava ainda inacabada.
—A gente podia sacanear o Debrando!
Era assim que ele era conhecido e Camila viu no homem humilde um alvo fácil!
— Como?! – o interesse de Daniela era evidente.
— Pela janela do quarto dos fundos. Ele está lá atrás, fazendo reboco na fachada do terraço… – Camila parecia já ter tudo muito bem pensado.
— Eu sei! Mas o que a gente pode fazer?
Maquiavélica, Camila explicou seu plano: munida de um gravador, Daniela, cuja voz dificilmente seria identificada por Hildebrando, gravaria um áudio chamando pelo homem e tentando fazer com que ele procurasse pelo chamado. O gravador seria depositado no batente da janela dos fundos da casa de Daniela, já que as casas tinham áreas muito próximas, que quase se comunicavam. Camila voltaria para casa para poder observar a reação do homem sem levantar suspeitas e, discretamente, Daniela acionaria a máquina e correria para espiar pelo basculante do banheiro. As duas teriam visão privilegiada de um bobo buscando por uma voz que o chamava sabe lá Deus de onde. Hildebrando era muito simples e não pensaria tratar-se de uma brincadeira. Certamente ele cairia na armação… Até conversaria com o gravador e as duas teriam bons motivos para rir às custas do pedreiro.
Assim foi feito! Sem que ninguém percebesse, Daniela, trancada em um quarto e sem qualquer interferência sonora externa, com voz mansa, gravou o áudio, usando de frases que viessem a despertar o interesse do homem e estabelecendo pequenas pausas entre estas frases, marcando os momentos onde, em sua imaginação, Hildebrando buscaria pela dona da voz.
Terminada a gravação, discretamente o gravador foi depositado na janela do quarto dos fundos da casa de Daniela.
Aquela tarde estava nublada, o que parecia favorecer o silêncio no local. Hildebrando continuava lá, com um balde de cimento fresco nas mãos, equilibrando-se sobre uma escada velha e fazendo seu trabalho, como era de costume e como a responsabilidade lhe impunha. Camila correu para sua casa e fingindo arrumar os armários, posicionou-se na cozinha, de onde poderia ver o pedreiro e observar sua reação. Passados alguns minutos, Daniela acionou o play e seguiu para o banheiro, subindo em um banco e espiando tudo pelo basculante.
—Oi! – disse a gravação.
O homem movimentou-se levemente e pareceu ouvir, mas não deu nenhuma atenção.
As pausas dadas por Daniela em sua gravação foram perfeitas! Após um breve instante o gravador insistiu:
— Aqui! Eu tô aqui… – e depois de uma breve pausa:—Aqui, Dedê!
Nesse momento, estando Daniela e Camila cada qual em sua casa, foi preciso conter o riso! Nenhuma das duas sabia ao certo de onde Daniela retirara o termo “Dedê”, mas funcionou! A maneira supostamente carinhosa de chamar, enrustida na voz mansa da garota, fez com que Hildebrando demonstrasse mais interesse e procurasse a dona da voz.
—Aqui, Dedê. Não consegue me ver? – disse o gravador, estabelecendo em seguida mais uma breve pausa.
Hildebrando procurava. Era clara a curiosidade do homem! Ele olhava para cima, olhava para baixo, olhava ao redor… Suas sobrancelhas arqueadas revelavam a estranheza de ser chamado por uma desconhecida. Seus olhos curiosos percorriam tudo, procurando sofregamente por alguém.
— Dedê… Dedêêê… Eu tô aqui. Tô te vendo… Olha pra cá…
A cada frase impostada pelo gravador, a tensão de Hildebrando parecia aumentar, assim como a vontade de encontrar quem o chamava e como a necessidade de Daniela e Camila de conter o riso.
— Ah, Dedê… Olha pra cá… Aqui ó… Tô aqui, Dedê… Tô daqui, te olhando faz um tempão…
Camila espiava da cozinha e Daniela se mantinha atrás do basculante do banheiro, sem ser notada pelo homem que, afoito, buscava pela voz. Hildebrando já não se continha mais. Olhava tudo enquanto tentava manter o balde de cimento nas mãos. Revirava-se na escada, retorcia-se para um lado e para o outro em tentativas vãs de enxergar alguém que não estava ali, enquanto o gravador o instigava sem cessar.
E, se a escada de madeira onde o homem equilibrava-se não estivesse velha e gasta pelo tempo, ele teria sido foco das risadas de Daniela e Camila por semanas. A escada cedeu e Hildebrando, ainda segurando um balde cheio de cimento, despencou de uma altura de quase três metros. Morreu com o crânio estourado no chão da área dos fundos da casa de Camila. As duas, cada qual em seu posto, presenciaram  queda e morte do pedreiro.
Veio polícia, veio perícia… Acidente de trabalho, constataram. A esposa do homem entrou em desespero. Seus filhos também. A vizinhança ficou em polvorosa com aquela desgraça. Um homem justo e trabalhador, que sempre fizera tudo certo, em um deslize acaba morto durante o trabalho.
O gravador fora muito bem guardado, a fita cassete apagada; não havia rastros, nada que incriminasse ou levantasse qualquer suspeita sobre Daniela e Camila.
Hildebrando foi enterrado dois dias depois, após autópsia e liberação do corpo. Acompanhadas de seus pais, as amigas, sem culpa ou qualquer sentimento semelhante, acompanharam o cortejo até a sepultura, apenas trocando breves olhares que passaram despercebidos mediante a consternação de todos os demais presentes. Não derramaram uma lágrima. Não demonstraram qualquer comoção. Não se intimidaram nem mesmo com o desespero da viúva.
Naquela noite, na varanda da casa de Daniela, um pacto foi selado:
— Ninguém pode saber o que realmente aconteceu, entendeu, Daniela? – dizia Camila. E completava: —Não deu muito certo, eu sei… Mas que graça teria a vida se não pudéssemos fazer troça com a cara dos outros?
— Eu sei. A vida não teria graça nenhuma… E, quanto a gravação… Ah! Nem mesmo o morto sabia. Morreu sem saber que éramos nós duas que estávamos sacaneando ele… Morreu como o bobo que sempre foi. É só a gente não comentar com ninguém.
—Pois é! Não comentar nunca com ninguém… – Camila deu ênfase ao advérbio. — Não tem como descobrirem… Só nós sabíamos!
— Só nós duas!… – repetiu Daniela, sem remorso.
— Ninguém sabe o que motivou a morte do Debrando e nunca ninguém saberá. Ele morreu e ponto final.
E, passado alguns minutos de conversa entre as duas amigas,  como se os ponteiros do relógio tivessem pressa em encerrar aquele dia fúnebre, chegou a hora de Camila voltar para sua casa. Era tarde e, no dia seguinte, ambas teriam aula logo cedo.
Deitada em sua cama, Daniela não conseguia dormir. Era assim desde a morte do pedreiro: o sono custava a chegar e ela passava parte da noite em claro. Ela imaginou que tudo fosse melhorar após o enterro, mas havia algo no ar que insistia em lhe tirar o sossego na hora de dormir. Camila nada comentou com a amiga, mas também não conseguia pegar no sono com facilidade. Desde o suposto acidente, dormir era quase uma tormenta… Uma tormenta que piorou naquela madrugada.
— Oi! – disse uma voz de homem no quarto de Camila.
Certa de que ouvia coisas, a jovem fechou os olhos e virou-se para o outro lado. Mas a voz, após uma breve pausa, insistiu:
—Eu tô aqui! Você não me vê?
A situação na casa ao lado, no quarto de Daniela, não era diferente:
— Aqui! Eu tô bem aqui, Dani… – ecoou no quarto, fazendo com que a garota gelasse de susto.
—Ah, Cami! Olha pra cá… – a voz insistia no quarto de Camila.
Em seu quarto, diferente de Camila que virou para o lado e fechou os olhos, Daniela, procurava pela voz.
— Aqui! Bem aqui! Não consegue me ver?… – dizia sem parar.
E simultaneamente, no quarto de Camila e no quarto de Daniela, em tom assustador e acompanhada de um vento gelado, a voz de homem perguntou:
— Que graça teria a morte se não pudéssemos voltar e fazer troça com a cara dos outros?

 

***

 

 

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VAGALUME DA ESPERANÇA

imageCoisinha esquisita essa tal de esperança… No mesmo pé que chega, se bobear, vai embora, deixando a gente com cara de tacho, com gosto amargo na boca. Sabe vagalume? Que ao mesmo tempo em que está ali, se apaga e, no escuro parece que já não está mais? Assim, exatamente desse jeito, é a tal da esperança… Acende e apaga, vejo e não vejo, tenho e perdi…
Em alguns momentos, manter acesa essa chama é complicado. Ela insiste em desaparecer, se apagar sozinha… Lembra do vagalume? Pois é! Mas quando a gente pensa que apagou, que ele foi embora, logo ali, mais adiante, ele se acende. Ele volta a reluzir. Brilha bem em frente a cara da gente…
Coisinha estranha esse tal de vagalume… No mesmo pé que chega, se bobear, vai embora… Acende e apaga… Exatamente desse jeito, igualzinho a tal da esperança.

O Lado Oculto do Medo

“O táxi estacionou em frente ao portão da vila e ela pôde perceber que, considerando sua expectativa e seus temores, o lugar não era de todo ruim. Ao menos, não parecia ser… O portão de entrada era grande e pesado, em ferro. A rua estreita, porém, razoavelmente extensa, acomodava oito casas, quatro de cada lado, todas com dois andares, e fachadas com varandas exatamente iguais. Na outra extremidade da vila, ainda do portão de entrada, ela avistava um muro e, além dele, apenas copas verdes de árvores.”
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Se antes a vida de Tina era bastante tranquila, agora, com o novo emprego no município vizinho, tudo seria diferente. Encontrar onde morar até que foi fácil: uma vila de oito casas, cada qual com um apartamento no segundo andar, totalizando dezesseis moradias. E os vizinhos? Um diferente do outro, um mais estranho que o outro, o que não se tornaria um problema se não fossem os acontecimentos que se seguiriam.
Uma morte antiga e até então não explorada, vem à tona em decorrência de uma nova morte na vila. Em paralelo, as ações dos vizinhos parecem fazer menos sentido a cada dia. Porém, ela sabe perfeitamente que há algo por trás daquelas mortes. Não são comuns, não se tratam de acaso e não se justificam apenas de acordo com o que a polícia percebe. Resta à Tina descobrir de que se trata.

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