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Posts Tagged ‘amor’

Samantha, apesar de sua pouca idade, tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e um salário que fornecia condições de manter um apartamento de cobertura em um dos prédios mais altos de um bairro nobre da cidade. Tudo ali era luxuoso e a mobília moderna e aconchegante esperava por ela a cada final de expediente. Um filme todo final de noite, com pipoca e sorvete, era regra e naquele dia dos namorados, não seria diferente. Ao menos aquele era o seu desejo.

Entretanto, a sorte nunca fora uma boa companheira de Samantha. Se o assunto fosse amor então, a coisa ficava ainda mais complicada. Seu último namorado, por exemplo, morrera anos antes em um acidente de carro, quando era ela quem estava ao volante, fato que lhe causava culpa e dor, além de fazer com que ela evitasse novos relacionamentos ou novas possibilidades que poderiam evoluir para um relacionamento. 

Mesmo em suas vontades mais banais, a sorte insistia em interferir e naquela noite não foi diferente. Samantha optou por deixar o escritório mais cedo e não participar da festa promovida pelos funcionários da empresa para desfrutar da paz de seu apartamento e assistir um filme do Hitchcock ou do Coppola. Porém, ela não contava com uma ocorrência: uma falha elétrica deixaria o prédio inteiro às escuras naquela noite e traria o inesperado para dentro da realidade triste e solitária que ela experimentava por anos a fio.

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PalavrasDa mágoa que o consumiu, homiziado de ninguém no beco que o abrigara e onde enraizara suas dores, fez o possível alicerce para sua conduta e a provável redenção para seus lamentos. Conseguiu ser mais que muitas mágoas… Era pensante e atuante no meio em que, brutalmente, cavou pra si mesmo quando lhe faltavam dedos para contar as tantas mágoas que garimpou naquela terra seca que o tempo o fizera engolir. Reverteu a dor em arte, converteu em sorte o azar, transbordou de sentimento a partir das punhaladas dadas pela vida. Fez do nefasto, anunciação; verteu como elucidador, elucidando a dor de quem muito sente, extravasando as vontades que outros escondem. Conseguiu ter mais que muitas mágoas.

Nas noites escuras e solitárias, via na fumaça do cigarro seu passado ganhar formas sólidas, seu futuro perder as possibilidades concretas e seu presente criando arestas. E escrevia… Não mais que escrevia. Em relatos pessoais, quase autônomos, descrevia o humano como se desumano fosse, destrinchava a essência desenfreada dos fatos que presenciava através das fendas nas paredes gastas e úmidas de si próprio. Sem receio das condenações, sem o peso das atribulações… Apenas escrevia. Era poeta dele mesmo! Poeta de um cotidiano atroz que ele gostaria de poder desprezar. Um cotidiano que não o poupava e por isso o fazia poeta, como se do sofrimento se formasse a alma e como se da solidão a mente se povoasse de idéias.

Foi buscando a escrita perfeita que o poeta encheu seu tinteiro de sangue, encharcando de emoções os parágrafos registrados naquele pergaminho… Reproduzindo no papel as feridas antes estampadas na alma…  Lastrando em metástases as palavras que o inundavam… Fazendo de seu grotesco um rastro literário para os que o quisessem um dia alcançar… Reciclou a podridão das noites na transcrição de cada manhã que as sucedia… Construiu seu real naquele surreal de falsas realizações e à mingua… Transformou solidão em melodia, sensação em prosa, emoção em verso e ódio no que quisera que fosse. Cabresteou do tempo o tempo que o tempo ofertou. Viveu a vida na vida que lhe coube. Serpenteou o choro em cada sorriso amarelado. Cresceu! E morreu poeta, sem descobrir se viveu gente algum dia…

***

Gosto tanto deste texto que optei por republicá-lo hoje.

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ponte-da-saudadeDas vidas de onde não se leva menos, nem se leva mais… Não se leva. Deixa-se aos que ficam, aos que ainda estão por chegar; deixa-se aos que experimentaram um pouco do que se tentou no muito que se conseguiu; deixa-se aos que ouvirão histórias minhas, histórias nossas, histórias de um tempo onde o impossível se fez real, ganhou formas e virou lembrança. Das vivências, do convívio, dos acontecimentos, ora felizes, ora tristes. Das vidas em que sorrisos sinceros verteram lágrimas; em que planos mirabolantes tornaram-se risadas imediatas; em que soluções transformaram-se em problemas; e em que problemas explodiram em soluções… Das vidas que vivemos o tanto que somos, o muito que fomos, o todo que arregimentamos, a saudade que ficou.

Do tempo que passou ao tempo que está por vir. Do ontem ao hoje, ao amanhã. Do qualquer ao específico; da suposição à constatação. Das partidas, das chegadas; das idas e vindas de todos nós… Das lembranças saudosas que chegam e se apropriam do corpo e da alma. Dos dias sombrios; das noites iluminadas. De tudo que foi escrito na areia, gravado na pedra, inscrito no peito. Dos dezembros sem fim carregados de saudades.

Dos caminhos que se cruzaram no ontem e se estenderam até a eternidade, até o sem fim, até o pra sempre. Das pontes que nos levam, que nos trazem, que te trazem; que ligam pontos e destinos, que cruzam estações, que direcionam os passos. Do vento que afaga, da chuva que consola. Deixa-se aos que se lembram o supremo poder da aproximação; o estar próximo mesmo estando longe; o estar junto, estando já separado. Deixa-se aos que sentem a máxima da plenitude. Deixa-se o querer de quem muito quis; deixa-se a lição do que foi perdido e a posse da conquista. Deixa-se as vidas que existiram em uma vida, que passaram, que ficaram, que ainda estão na lembrança.

Dos antigos dezembros, dos dezembros passados e ainda tão vívidos… Dos dezembros de ontem que não voltam mais… Dos dezembros sem fim carregados de saudade, deixa-se o muito que se foi, o tanto que se fez, das vidas de onde não se leva menos, não se leva mais, mas se deixa além, se deixa muito. 

“But since it falls unto my lot

That I should rise and you should not

I’ll gently rise and I’ll softly call

Good night and joy be with you all”*

* Música:  “The Parting Glass”.

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Parada na porta da capela, ela observava aqueles que se aglomeravam ao redor do caixão onde jazia inerte aquele que, durante anos, ocupara espaço em sua vida. Estranhava como tudo se processava ali. Dois oficiais de polícia permaneciam, um de cada lado da porta, e, como estátuas, pareciam ornamentar o recinto. Os irmãos do morto conversavam alterados em um canto, distanciados dos demais. Um deles, o mais velho, parecia já ter bebido o defunto desde a véspera; o outro, mais sensato, alterava a voz, oscilando entre raiva e nervosismo. Sentadas em um banco, abraçadas, lamentavam mãe e avó; enquanto a viúva, não ela, a titular, parecia questionar algo ao morto à cabeceira do leito.

Ninguém parecia notar sua presença, mas isso não a incomodava. Ela nem ao certo sabia se queria estar ali, entretanto estava. Talvez fosse preciso confirmar a partida daquele que já havia partido de sua vida; talvez fosse o momento para uma despedida formal que, até então, não acontecera; ou tudo não passava de um instinto arredio e feminino qualquer gritando dentro dela. Ele estava morto, e isto era fato. Curiosamente, ela não chorava, não sentia nada; deixou que as lágrimas fossem exclusivas da viúva, assim como o estardalhaço pela perda acontecida.

O cheiro das coroas de flores que disputavam ambiente com aquelas pessoas começava a crescer e, como uma atmosfera nefasta, a levava à outros tempos; tempos que não tinham espaço em seu tempo. Pensou nos anos que passara com ele e nas promessas feitas e nunca cumpridas. A cada ano uma desculpa diferente… A promoção no trabalho, a doença da filha, a quitação da casa; tudo sempre servira como motivo para adiar a separação, fazendo com que ele mantivesse a vida dupla e com que ela, na condição de amante, esperasse por mais um ano. Muitos anos se foram.  Até que, enfim, ela não sabia mais pelo que deveria esperar.

O toque dos sinos, anunciando que chegara o momento do sepultamento, a trouxe de volta de seus devaneios. O caixão seria fechado, porém, não antes de mais um acesso descompassado de histeria da viúva. No cortejo, rumo à sepultura, um grupo de beatas entoando a Ave Maria; ao lado do caixão a viúva fuzilada pelos olhares ácidos dos familiares do morto e, mais adiante, os policiais. Ela seguiu atrás daquelas pessoas, fechando o cortejo fúnebre embalada pela ladainha das beatas e pelo choro compulsivo da avó, que o criara desde menino.

Já próxima à sepultura, uma última recordação: lembrara do dia em que ele se fora. Parecia ouvi-lo dizer que a estava abandonando por receio de uma descoberta; ele alegava temer perder a esposa caso ela descobrisse aquele relacionamento extraconjugal, temia sua reação por acreditar que ela o amava demais. Automaticamente, depois dessa recordação, ela lembrou-se da forma como recebeu a notícia de sua morte através de uma manchete em letras garrafais na primeira página, lida ao abrir o jornal naquela manhã: “MARIDO ASSASSINADO PELO AMANTE DA MULHER.”

O caixão descia à sepultura. Guiada pela ironia da situação, ela dirigiu o olhar à viúva até então cabisbaixa. Movida por algum pressentimento, esta levantou a face e seus olhares se cruzaram. Fitaram-se durantes alguns segundos que pareceram eternos. Foi então que ela sentiu a culpa por ter sido a outra, que carregara até então, saindo como uma energia leve e etérea, e ganhando um outro território. Com olhar sarcástico, sem pena, sorriu para a viúva.

Deus às costas àquele evento deixando pra trás não somente o barulho da terra batendo na tampa do caixão, mas também o peso de quem pagou com sofrimento uma dívida que não era somente sua.

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Chama fria que embala os despautérios das emoções de uma vida inteira. Não deixa morrer de frio, não deixa arder em brasas; não afaga, não aconchega. Não ameniza o sofrimento nem embala o pensar solitário daquele que espera e vela o tempo que passa sorrateiro. Apenas se mantém acesa sem aquecer, sem inflamar… Calor desumano que faz buscar no outro a solidez do porvir de um sentimento real que cresce na incerteza dessa desnatureza insana e verdadeira de todos nós. Não consolida, mas faz voar alto sem sair do lugar, faz ir além do que a esperança alcança.

Sussurros perdidos nas noites em que a alma congelada pedia alento. Palavra que soa fraca e soa oca.  Sorriso que não basta quando se quer o todo, a plenitude de um qualquer maior que nós ou um ser grande mesmo sem ter sido. Insensata insuficiência da busca infinita, da completude do eu no teu, ou do teu no meu. Ruínas do caos que ficou antes da passagem do furacão, cegueira de olhos que vêem longe, melodia muda de um avesso pessoal que se faz presente, que se faz cortante, que ainda ecoa. Deslumbre da vida que ficou na vida que se foi por uma vida que ainda pode ser.

Chama fria… Ainda é já não sendo mais, ainda está depois de ter partido, cresce a míngua e se estabelece no nada dessa construção egóica. Oscilante marasmo tsunâmico. Soberania das vontades lentas, supremacia das dúvidas que caminham sem levar a lugar algum. Uma vez apagada talvez não mais se acenda; enquanto acessa ainda não se apagou.

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Olhando minha face refletida no espelho, vejo através do meu olhar. Estou escondendo algo de mim. Estou escondendo algo de você.  Você se esconde de mim. Desconexo paradoxo de emoções conflitantes que se alternam como estações: ora quentes, ora frias; paralelo das vias que se cruzam e se mesclam como cores: ora sóbrias, ora intensas. Somos de um lado, somente eu e minha confusão, ambas já cansadas de lutar; de um outro somente você e suas confissões, ambos cansados de sucessivos vazios; e de um outro lado, somente eu e você, ambos já cansados de perder.

O meu olhar no espelho tem medo de mim. Você tem medo de mim… Ainda sou aquela que sangra quando uma palavra é dita na hora errada; aquela que tem receio do escuro, mas muitas vezes se descobre dentro dele.  Sou aquela menina frágil de atitudes grosseiras que se quebra quando erra, por mais que pareça inteira. Sou aquela que se esconde ao se mostrar; aquela que, por não suportar a queda, antes de cair já se levantou e seguiu adiante…  Sou aquela que não olha pra trás; sou desejo e contradição; sou verdade que dói e esperança que não se recolhe.

O teu olhar em mim tem medo de você. Você tem medo de você… Ainda és aquele cuja perda deixou ferida aberta, que não cicatriza nem permite que eu a cure; aquele que apaga a luz para permanecer no breu.  És aquele menino forte de atitudes frágeis, que finge ter se mantido inteiro, mesmo que com a alma estraçalhada. És aquele que se mostra ao se esconder; aquele que caiu e a quem quero ajudar a levantar e seguir adiante… És aquele que só olha pra trás; desejo em contradição; mentira que amansa a dor e esperança que já morreu.

Nesse inferno particular que indiretamente compartilhamos, caminhamos juntos por mais que separados. Eu não andei a toa, você também não. Fui longe, muito além do que o reflexo no espelho poderia me indicar. Cheguei até aqui e parei, só pra te esperar. Dessa vez eu não me salvo sozinha. Dessa vez você não morre sozinho… Nesse desencontro de dois, ser dois é mais que um; e por mais que um não queira há algo que aponta um fim. Não um fim solitário como os que tive e aqueles tantos que você insiste em colecionar, mas um fim de dois, onde se suprime o medo e se descobre, além dos reflexos do espelho, o reflexo de um no outro. Onde um é para o outro… Onde um busca o outro… Onde enfim seremos…

…Seremos aqueles cujas palavras simplesmente serão ditas e cujas feridas se fecharão para ceder  lugar às alegrias. Seremos aqueles cuja luz emanada será maior que qualquer chama, impedindo qualquer escuridão. Seremos fortes por sermos frágeis, seremos verdades em oposição às mentiras que o mundo insano insiste em incutir em nós. Seremos aqueles que se mostrarão sem quedas, seguindo adiante juntos e esquecendo o que ficou pra trás. Sem medo de mim, sem medo de você, sem medo do que podemos vir a refletir.

Enfim, então seremos… Libertos das frustrações e decepções que a vida nos proporcionou, acarinhados um do outro, acariciados um pelo outro, nesse encontro feliz de conflitantes emoções conectadas como estações que se complementam, como cores que se fortalecem… Enfim seremos! Depois disso, tudo será diferente. Dessa vez eu não me salvo sozinha… Dessa vez você não morre sozinho… Porque do inferno se fez o milagre… Porque foi preciso sermos nós, sendo dois como se fôssemos somente um,  para  que você me salvasse e eu não te deixasse morrer.

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Das sombras de um amor que nunca fora amor, mas quisera que deveras o fosse, recolhia as sobras de si mesma que ficaram espalhadas pelo caminho. Eram os fragmentos líricos dos momentos, as cores múltiplas dos sonhos, os sabores das inúmeras venturas vivenciadas, o suposto tracejo dos ideais rompidos, os sons dos gemidos e queixas; todos, até então, largados ao léu, quase desprezados nas metáforas maltrapilhas de si. Pegava cada pedacinho seu, o encarava com ar de novidade e se remontava. Refazia-se mulher para, naquela reconstrução egóica, ver criado o espaçamento perfeito para voltar a amar.

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