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Posts Tagged ‘conto’

Samantha, apesar de sua pouca idade, tinha um excelente cargo na empresa onde trabalhava e um salário que fornecia condições de manter um apartamento de cobertura em um dos prédios mais altos de um bairro nobre da cidade. Tudo ali era luxuoso e a mobília moderna e aconchegante esperava por ela a cada final de expediente. Um filme todo final de noite, com pipoca e sorvete, era regra e naquele dia dos namorados, não seria diferente. Ao menos aquele era o seu desejo.

Entretanto, a sorte nunca fora uma boa companheira de Samantha. Se o assunto fosse amor então, a coisa ficava ainda mais complicada. Seu último namorado, por exemplo, morrera anos antes em um acidente de carro, quando era ela quem estava ao volante, fato que lhe causava culpa e dor, além de fazer com que ela evitasse novos relacionamentos ou novas possibilidades que poderiam evoluir para um relacionamento. 

Mesmo em suas vontades mais banais, a sorte insistia em interferir e naquela noite não foi diferente. Samantha optou por deixar o escritório mais cedo e não participar da festa promovida pelos funcionários da empresa para desfrutar da paz de seu apartamento e assistir um filme do Hitchcock ou do Coppola. Porém, ela não contava com uma ocorrência: uma falha elétrica deixaria o prédio inteiro às escuras naquela noite e traria o inesperado para dentro da realidade triste e solitária que ela experimentava por anos a fio.

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O preço é promocional e será mantido até o final deste mês (junho), portanto aproveite! O conto está disponível na Amazon e pode ser lido gratuitamente no Kindle Unlimited.

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Batente da Porta

ft-fazenda2Tinha pena daqueles que não sabiam cozinhar. Sempre teve. Era triste saber que estes nunca desfrutaram dos planos que se faz ao mexer uma panela de pirão ou ao esperar um assado pedir pra sair do forno. Tantos eram os pensamentos embalados pela mescla de aromas de uma cozinha bem vivida e pela quentura de suas memórias; sonhos que podem brotar e crescer no fervilhar de um caldeirão de sopa.

Cresceu na soleira de uma cozinha pequena com paredes de barro vazado, localizada nos fundos da casa, quase do lado de fora. Sentada no batente da porta quando pequena, todos os dias ouvia as histórias contadas pela avó enquanto cozinhava. Eram conversas que não tinham fim, conversas que emendavam almoço e janta, emendavam um dia no outro; que traziam de volta os vultos que ela sequer pudera conhecer ainda frescos, com cheiro de café passado na hora. Eram sonhos, que começavam logo cedo, antes da lida dos homens, e seguiam noite adentro. Histórias que atribuíam significados a cada lanho nas panelas de barro, a cada cicatriz das canecas de esmalte barato e que, junto aos caldos e mingaus da avó, a fizeram crescer mais forte, mais preparada para o que viesse da vida. E muita coisa veio.

De tempo em tempo, vinha um ou outro viajante, fosse parente distante ou desconhecido fazendo passagem. Casa de roça na beira da estrada era assim: passava peão, caixeiro viajante e vigário migrando de paróquia, e à todos eles de nada custava um chá de erva colhida com um pedaço de bolo de milho. De noite, do lado de fora, chá mate e uma fogueira pra afugentar o frio dos mais velhos e fazer sossegar as crianças, que não eram poucas.

Conforme a mocidade foi chegando e os meninos puderam sair pra lida, dedicou-se às prendas da avó.  Cozinhar era o que lhe sobrava naquelas terras de araucária… Era ver um dia sucedendo o outro, por entre o bafo das panelas que fervilhavam em cima do fogão. Café, almoço e janta… Café, almoço e janta… Café, almoço e janta,num ciclo feliz e rotineiro de quem tinha os pés no chão e a cabeça num porvir qualquer que não lhe pertencia.

Viu o tempo passar e muita gente deixar a roça pra ganhar cidade além do sul. Viu a eletricidade chegar sem pressa naqueles confins. Viu a mãe herdar o fogão da avó e, com mais algum tempo que passou, se viu recebendo de herança o mesmo fogão pra continuar alimentando as bocas que por ali passassem, fossem vindas do plantio ou da colheita, fossem varadas de fome ou exaustas de cansaço. Viu lhe chegar um marido cheirando a cachaça, trazido pelo irmão mais velho que insistia em ter pena de seu destino. Viu chegarem os três filhos: dois meninos pra ajudar o pai, e uma menina pra sentar no batente da porta da cozinha e ouvir suas histórias. Viu os três crescerem fortes e tomarem seus rumos na vida. Viu sua mão calejar, os fios brancos brotarem nas suas têmporas e sua pele enrugar… E sem arrependimento da vida que foi sua, nem dos dias passados no batente da porta da cozinha ou das noites ao redor da figueira, um dia, em oração, pediu ao Pai uma morte tranquila.

Assim foi. Quando a senhora de todos os destinos percebeu que seu tempo estava no fim, começou a rondar a casa e esperou que, entre o preparo de uma refeição e outra, ela se sentasse para descansar no batente da porta da cozinha. E a morte então chegou, alumiando a porta, com  a candura da avó, impregnada do cheiro da avó, e com voz tão mansa quanto aquela que lhe contava histórias: “Vem, fia, que já é hora…” Ela levantou a cabeça e, com olhar cansado, sorriu de leve e lhe estendeu as mãos.

***

Se você gostou ou se identificou com este texto, leia também: Lá na Roça.

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Depois de engolir poeira pela estrada ele enfim chegava a casa onde fora criado. A vizinhança parecia a mesma, as roupas sacudiam ao vento no varal e o cão cochilava no batente da porta. Não o mesmo cão que corria com ele naquele quintal durante a meninice; esse já havia dobrado o cabo da boa esperança há tempos… Outro cão! Um vira-latas negro, de porte grande e ronco ativo de cão preguiçoso.

Na varanda rodeada de vasos de rosas vermelhas e miúdas, o balanço de ferro trazia consigo a lembrança dos namoros de final de tarde, onde ele e os amigos, por muitas vezes, beijavam escondido e descobriam as incertezas de vida amorosa. Sobre a porta de entrada a placa ‘bem vindo’ parecia corroída por cupins e uma mariposa estacionada no cantinho lembrava que aquilo era interior. Ele quase não via mariposas na cidade!

Lá de fora se ouviam as lamentações abafadas das comadres e compadres da vizinhança que, seguiam  a tradição  e ‘bebiam a defunta’. O choro curtinho e ininterrupto apontava mais incertezas. Porque ele havia passado tanto tempo afastado? Porque esperou tanto para retornar, adiando sempre sua chegada para o próximo final de ano, chegada essa que nunca acontecia. Ele sabia que ela não poderia esperá-lo para sempre. Sabia que o tempo, assim como os cupins na placa sobre a porta, corroia as pessoas e levava delas o melhor: a vida. Faltou-lhe coragem pra entrar.

Sentou-se no balanço da varanda, balançando ao som do ronco do cão e das lamentações que ecoavam lá dentro; lá dentro da sala, lá dentro dele… O coração queria transbordar, como se a culpa não encontra-se mais espaço pra crescer. Ela se foi depois de tanto esperar por sua visita. Ele veio quando já não havia mais tempo. As horas se passaram e como num sonho, reviveu, ali naquela varanda, os tempos de moleque. Em pequenos flashes embaçados as estripulias da infância voltavam gradativamente à memória… Comer manga trepado na árvore, o banho no riacho com os amigos que o julgavam inseparável, o cheiro da broa de milho assando no forno de lenha, a procissão de beatas na Sexta Feira da Paixão, os esporros que tomava quando, catando vaga-lume no mato, passava da hora de jantar… Sem saber ao certo depois de quanto tempo, foi despertado pelo rangido da porta que se abria.

Porta que se abria dando passagem ao cortejo de senhoras todas com véu sobre a cabeça, e de homens, todos segurando um chapéu de palha sobre o peito. Na outra mão carregavam cada um deles uma alça do caixão barato, que seria corroído também, e onde dentro descansava o corpo de sua avó. As comadres sussurravam a Ave Maria, os comprades, cabeça abaixa, caminhavam sérios, a passos lentos. Eles carregariam um caixão até a cova; ele carregaria culpa e remorso por toda a vida. O cortejo acordou o cachorro, que levantou-se e seguiu junto.

Sentado no balanço ele acompanhava com olhar vago. Ela ia, depois de tanto esperar por ele. O cão, fiel até o último momento, a acompanhava. Talvez aquele cão tivesse mais direitos que ele, talvez até sentisse mais que ele, afinal se manteve fiel a ela. Chorou pela ausência da avó e pela solidão que o cão teria de suportar. Chorou pela solidão da avó esquecida por anos naquela casa de campo.

Ficou no balanço. Não acompanharia o cortejo. Não iria ao enterro. Sepultar a avó seria jogar pás de terra sobre seu passado e ele não permitiria isso. Da varanda, corroído pelo tempo, que ele mesmo deixou passar, e pela culpa que o consumia, assistiu um cão sem culpa que guiava sua dona até a última morada…

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Texto relançado, publicado originalmente em Janeiro de 2011.

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