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Posts Tagged ‘filme’

Ultimo mês do ano começando e há tempo para se preparar para uma maratona de filmes! Evidentemente, por ser cinéfila assumida e DVD maníaca, eu não poderia deixar passar em branco o  Natal na sétima arte. Sem intenção de apontar melhores ou piores, selecionei uma lista (que deveria ter ficado menor, porém, confesso que me empolguei!) de filmes natalinos. Sejam comédias, animações, dramas, ou qualquer outro gênero, se soubermos e quisermos olhar além e refletir um pouco sobre a mensagem de cada uma dessas obras, certamente teremos gratas surpresas.

o-grinchO Grinch (The Grinch – 2000): O Grinch é uma criatura verde e mesquinha que odeia o espírito de Natal. Ele pretende estragar a festa dos moradores de Quem-lândia roubando presentes e enfeites com a ajuda de seu cãozinho Max. Ao mesmo tempo, a pequena Cindy Lou Quem moradora de Quem-lândia, observa as pessoas pensando apenas em compras, presentes e enfeites e quer saber o significado do Natal. Os caminhos de Cindy Lou e do Grinch se cruzarão e, juntos, conhecerão o verdadeiro espírito do Natal. O filme é uma fábula sobre diferenças e diversidades, onde a disputa de crenças e gostos se faz presente, além demostrar a inveja (fator destrutivo) de forma divertida e reflexiva.

1418908899os_fantasmas_de_scrooge2_fixed_bigOs Fantasmas de Scrooge (A Christmas Carol – 2009): O Natal se aproxima e, como sempre, Ebenezer Scrooge  mantém seu desprezo pela data. Milionário e muito mesquinho, ele só pensa em dinheiro e não dá espaço para a emoção em seu coração, maltratando Bob Cratchit, seu fiel assistente, e ignorando seu sobrinho Fred. Com a morte de seu sócio, Ebenezer recebe a visita de três fantasmas do Natal: do passado, do presente e do futuro. Cada um deles levará o velho ranzinza para uma viagem que o ajudará a refletir melhor sobre sua vida passada e a escolha que fará para o futuro. Essa revisão de valores imposta pelos fantasma propõe a Scrooge uma reformulação de vida, essencial a tantos que todos nós conhecemos.

home-aloneEsqueceram de Mim (Home Alone – 1990): Em Chicago, uma família inteira planeja passar o Natal em Paris. Porém, em meio às confusões de viagem um dos filhos, com apenas 8 anos, é esquecido em casa. Assim, o garoto se vê obrigado a se virar sozinho e a defender a casa de dois ladrões. O filme é extremamente divertido e, apesar de criticado devido às inúmeras reprises  na TV nessa época do ano, ainda cativa o público, além da mensagem que transmite sobre diferenças e possibilidade de aproximação, a partir do enredo desenvolvido entre o personagem principal e um vizinho idoso, descriminado pela vizinhança. Este filme apresenta três sequências; a segunda (Esqueceram de Mim 2 – Perdido Em Nova York) apresenta a mesma qualidade e elenco, já as outras duas são meio duvidosas.

19898542-jpg-c_300_300_x-f_jpg-q_x-xxyxxSobrevivendo Ao Natal (Surviving Christmas – 2004): Um homem rico, cansado de passar o Natal sozinho e abandonado pela namorada nesta data,  decide retornar à casa onde cresceu, na esperança de recuperar o espírito natalino e as grandes festas da época. Porém, no local vive uma família completamente desconhecida. Decidido a ter novamente um Natal em família, ele faz uma insólita proposta: oferece US$ 250 mil para que eles sejam sua família no Natal. Essa convivência não será das mais fáceis. O filme trata da solidão dos dias vazios de sentimentos e repletos de afazeres que acabam afastando as pessoas do que deveria ser privilegiado: família, pessoas, sentimentos, convivência.

natal-muito-muito-louco02Um Natal Muito, Muito Louco (Christmas with the Kranks -2004): Os Kranks sempre passaram o Natal juntos, mas este ano será diferente. Com a filha trabalhando como voluntária do Corpo de Paz no Peru, Luther e Nora já estão se conformando em ter que passar um Natal solitário. Até que Luther vê um cartaz exposto em uma agência de viagens, anunciando uma excursão ao Caribe. Ao fazer as contas Luther percebe que, caso sua família não tenha uma festa natalina, ele e Nora poderão viajar. Inicialmente relutante, Nora termina por concordar com a idéia, o que gera desagrado entre os vizinhos. De maneira irreverente o filme mostra o quanto pode ser prazeroso um feriado natalino junto daqueles que amamos, além de enfatizar, mesmo que indiretamente, o valor das tradições, já tão menosprezadas atualmente.

os-fantasmas-contra-atacamOs Fantasmas Contra-Atacam (Scrooged – 1988): Nos dias atuais, Frank Cross é um diretor de uma rede de televisão que é frio e só pensa na audiência. Ele encontra com Lew Hayward, um falecido amigo, que o avisa sobre três fantasmas (o do Natal Passado, Presente e Futuro) que irão visitá-lo e diz para ele estar atento a tudo que eles mostrarem, pois esta é a única oportunidade de Frank se salvar. Trata-se aqui de uma versão moderna do conto de Dickens, porém não menos atraente e que também aponta para a reformulação de vida, que pode gerar vida nova e perspectivas mais felizes.

surpresasSurpresas do Amor (Four Christmases – 2008): Todo Natal Brad e Kate seguem uma tradição criada desde quando se conheceram: livram-se das neuroses de suas famílias e viajam para algum local exótico e ensolarado, onde possam passar as férias. Só que neste ano eles não podem seguir o plano, já que um nevoeiro cancela todos os vôos do aeroporto de São Francisco. Para piorar eles são filmados por uma equipe local de notícias, o que faz com que suas famílias saibam onde estão. Sem terem como escapar, eles são obrigados a passar o Natal com suas famílias. Quatro vezes, já que precisam lidar com o pai e a mãe de cada um deles.Apesar de se tratar de uma comédia romântica, gênero condenado por muitos, o filme mostra a realidade das famílias modernas, divididas entre diversas casas por conta de pais separados e novas famílias constituídas.

papai-noel-existePapai Noel Existe (The Night They Saved Christmas – 1984): Pólo Norte, na Durante a época do Natal, uma companhia de petróleo procura um grande lençol petrolífero no Pólo Norte. A pior conseqüências dessa busca seria provocar uma explosão que poderá destruir a casa secreta do Papai Noel. A mulher de um engenheiro responsável pelo projeto toma consciência da situação ao conversar com o bom velhinho e pretende fazer todo o possível para ajudá-lo. Esbarramos aqui no tão enaltecido capitalismo, e nos fica clara a definição de que tudo, inclusive o lar-doce-lar de Papai Noel, pode ser posto a baixo para ceder espaço a uma nova via exploratória, que venha a trazer benefícios financeiros.

oestranhomundodejackO Estranho Mundo de Jack (The Nightmare Before Christmas – 1993): Jack Skellington é um ser fantástico que vive na Cidade do Halloween, um local cercado por criaturas fantásticas. Lá todos passam o ano organizando o Halloween do ano seguinte mas, após mais um Halloween, Jack se mostra cansado de fazer aquilo todos os anos. Assim ele deixa os limites da Cidade do Halloween e vagueia pela floresta. Por acaso acha alguns portais, sendo que cada um leva até um tipo festividade. Jack acaba atravessando o portal do Natal, onde vê demonstrações do espírito natalino. Ao retornar para a Cidade do Halloween, sem ter compreendido o que viu, ele começa a convencer os cidadãos a sequestrarem o Papai Noel e fazerem seu próprio Natal. Apesar de argumentos fortes de sua leal namorada Sally contra o projeto, o Papai Noel é capturado. Mas os fatos mostrarão que Sally estava totalmente certa. Lidamos mais uma vez com a cobiça, porém de forma divertida: a criatura diferente que não se satisfaz com o que tem e cria planos mirabolantes para destruir ou alterar aquilo que foge a sua realidade.

filmetitionoelTitio Noel (Fred Claus – 2007): O Papai Noel tem um irmão: Fred Claus, que viveu sua vida inteira atrás da grande sombra de seu irmão. Ele tentou, mas nunca poderia preencher as expectativas do exemplo deixado pelo mais novo Papai Noel. Agora o trambiqueiro Fred acabou na cadeia e após ter sua fiança paga, ele precisa ir para o Pólo Norte pagar sua dívida fabricando brinquedos. O filme ‘brinca’ com a rivalidade comum entre irmãos, porém aqui trata-se a situação de forma divertida e leve; mostra também que a crise pode aproximar e desfazer impressões, por mais que estas estejam enraizadas.

santa-claus-a-verdadeira-historia-de-papai-noelA Verdadeira História de Papai Noel (Santa Claus – 1985): Esta é a deliciosa história de um mestre em fazer brinquedos que descobre o reino mágico dos duendes no Pólo Norte. Lá ele recebe poderes especiais surpreendentes para se transformar no símbolo do Natal mais amado do mundo – Papai Noel! Na fábrica encantada ele conhece Patch, um duende ajudante que entra numa grande confusão com um magnata da indústria de brinquedos que planeja dominar o Natal. E assim começa a maior de todas as aventuras do Papai Noel para salvar o seu leal duende e o Natal de todas as crianças do mundo! Novamente o capitalismo em voga e ameaçando o Natal.

joyeux-noel1Feliz Natal (Joyeux Noel – 2006): Natal de 1914, em plena 1ª Guerra Mundial. A neve e presentes da família e do exército ocupam as trincheiras francesas, escocesas e alemãs, envolvidas no conflito. Durante a noite os soldados saem de suas trincheiras e deixam seus rifles de lado, para apertar as mãos do inimigo e confraternizar o Natal. É o suficiente para mudar a vida de um padre anglicano, um tenente francês, um grande tenor alemão e sua companheira, uma soprano. O filme mostra que os sentimentos que permeiam o Natal podem fazer com que adversários venham a se unir em comemoração pela data. Efêmero? Superficial? Não. Mais uma grande obra, repleta de questionamentos importantes; um filme de guerra que mostra como fazer a paz.

expresso-polarO Expresso Polar (The Polar Express – 2004):  O filme conta a história de um menino que não acredita mais em Papai Noel, mas acaba embarcando em uma viagem mágica, que tem por objetivo trazer de volta a magia do Natal para crianças incrédulas.  A história fala da desesperança, da descrença daqueles que se veem envolvidos em realidades diferentes: o menino que não mais acredita, porém sente que precisa acreditar, e decide dar a sua imaginação, meios de lhe devolver essa crença e lhe encher de esperanças novamente.

rudolph-a-rena-do-nariz-vermelhoA Rena do Nariz Vermelho (Rudolph: The Red Nosed Reindeer – 1964): Animação stop motion, produzida para a TV americana em um especial patrocinado pela General Electric. Conta a história de Rudolph, uma pequena rena que é humilhada pelos seus amiguinhos por ter o nariz vermelho. Quando o Natal é ameaçado devido a uma terrível tempestade de neve que impede o Papai Noel de entregar os presentes, Rudolph tem a chance de provar seu valor.  O filme lida com fraquezas: até que ponto os considerados fracos realmente o são; e até que ponto uma capacidade menor de força representa impossibilidade?

milagreMilagre na Rua 34 (Miracle on 34th Street – 1994): Em plena época do Natal, Susan (Mara Wilson), uma garotinha muito inteligente e esperta, afirma que Papai Noel não existe. Porém, um senhor muito bondoso, de olhos brilhantes, com uma “ampla” barriga e barba branquinha é contratado para trabalhar como Papai Noel na loja de brinquedos Macy’s, em que sua mãe Doris Walker trabalha. O que ninguém podia esperar é que o velhinho que diz se chamar Kris Kringle afirma ser o verdadeiro Papai Noel que está ali justamente para provar para a garotinha e para muitas pessoas que ele é real. O filme coloca a fé de todos  em teste quando questiona claramente: Você acredita em Papai Noel? A primeira versão do filme data de 1947.

anio-de-vidroAnjo de Vidro (Noel – 2004): É Natal em Nova York. As ruas estão cobertas de neve, músicas natalinas estão por toda parte e as pessoas andam apressadas em direção às lojas, para comprar os presentes de última hora. Porém um grupo de pessoas está completamente à parte deste clima. Alguns deles são Rose, uma mulher emocionalmente frágil cuja mãe está no hospital, e Mike, um policial que briga com um homem mais velho. Porém alguns encontros na véspera de Natal fazem com que eles repensem a vida, revejam conceitos e alterem algumas perspectivas. Um drama que envolve e comove, mostrando que sempre é possível ir além, promover encontros e superar dificuldades.

felicidade-nc3a3o-se-compraA Felicidade Não Se Compra (It’s A Wonderful Life – 1946): No Natal, um homem que sempre ajudou a todos, pensa em se suicidar saltando de uma ponte, em razão das maquinações de um magnata da região. Mas tantas pessoas oram por ele que Clarence um anjo que espera há 220 anos para ganhar asas, é mandado a Terra, para tentar fazer George mudar de idéia, demonstrando sua importância através de flashbacks. Este faz rever atitudes e conceitos, além de fazer chorar muito também!

1Um Duende Em Nova York (Elf – 2003):  Buddy é um humano que foi criado no Pólo Norte e acaba se transformando em um elfo. Após ter problemas na comunidade em que vive e incomodado com sua rotina, ele decide largar tudo e partir rumo a Nova York. Seu objetivo é encontrar seu pai, e quando isso acontece ele se decepciona ao saber que trata-se de  um espertalhão que não acredita em Papai Noel. Mesmo parecendo piegas e bobo, é divertido pra quem busca distração e risadas. Além disso, o final traz uma grata mensagem de união e solidariedade, capaz até de fazer chorar.

black_christmasNatal Negro (Black Christmas – 1974): Uma trama natalina de terror inovando e mesclando gêneros. O filme mostra uma história de vingança de um menino que, após crescer e ter sofrido torturas durante sua infância, matando seus pais na noite de Natal, tenta voltar a cada ano e fazer novas vítimas. É um filme muito interessante pois mexe com o Natal, um feriado que é sempre tratado com pureza, benevolência, e outros sentimentos deste tipo. Tem uma versão que data de 2007, mas peca em qualidade.

fc3a9rias-frustradasFérias Frustradas De Natal (Christmas Vacation – 1989): No intuito de inovar e agradar a família neste Natal, Clark Griswold lhes promete um Natal tradicional, porém isso foge seu controle e a programação acaba não saindo como deveria.  Há quem diga que o filme é trash, é besteirol… E daí?! Imaginem a família mais atrapalhada do mundo tentando ter um feliz Natal. Pois é! Diversão garantida e, talvez, poucas reflexões, pois as gargalhadas não cedem espaço a elas. Não é o meu caso, mas há um grande número de pessoas que considera esse como o melhor filme natalino de todos os tempo.

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Claro que foram muitos, mas foram poucos; foram tantos e não foram todos… Boa parte destes filmes eu tenho em meu acervo  (alguns só consegui adquirir em locadoras que estavam encerrando suas atividades – sim, sou rata de locadora!), e os que não tenho, procuro incessantemente mundo a fora. Seja comédia, drama, terror ou animação, há muitos filmes natalinos e se eu fosse falar de todos eles um blog seria pouco, quanto mais um artigo. Poderiam ser incluídos aí também  “Natal Branco”, “Um Natal Brilhante”, “Papai Noel Trapalhão”, “Meu papai É Noel” (uma trilogia!), “Gremlins”, “Duro de Matar” e “Adoráveis Mulheres” (estes três últimos fazendo referência à data, apesar de não serem filmes tipicamente natalinos), entre inúmeros outros. O que não faltam são opções! Entretanto, como se pode ver a partir de cada sinopse aqui apresentada, há sempre algo que remete à reflexão. Portanto, ficam as dicas para aqueles que gostam de filmes e do clima da época natalina.

 

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Atenção: contém spoilers.

The Walking Dead, série televisiva adaptada de uma história em quadrinhos homônima, conta a história de como seria o mundo após um apocalipse zumbi, porém não se trata apenas disso. Apesar dos excelentes efeitos, maquiage e takes surpreendentes, não é uma simples série de terror ou mais uma série que trata de temas sobrenaturais. O grupo de pessoas que compõe o núcleo da história, além de ter que lutar por sobrevivência fugindo dos mortos-vivos, precisa também lidar com a insanidade e desespero que lhes causam constantes mudanças de humor e a conseqüente eclosão de traços sombrios de suas personalidades. Por mais que existam zumbis em todos os cantos, ávidos por carne fresca, e prontos para atacar quem passar em sua frente, a principal temática de The Walking Dead são as relações humanas em situação de caos. A série mostra exatamente o que aconteceu com os humanos que restaram após esse apocalipse e tiveram que unir forças para garantir sobrevivência. E é justamente nesse ‘unir forças’ que muitas forças opostas entram em choque, assim como forças semelhantes, aparentemente equiparadas, mostram-se, com o decorrer do tempo, não tão semelhantes assim, ou peronalidades se alteram fazendo com que as reações mais adversas e inesperadas possam brotar… A cada episódio fica evidente a luta dessas pessoas em busca de artifícios que favoreçam adaptação a essa nova (e assustadora) realidade. (“A merda subiu a esse mundo, mas eu prefiro não me sujar.” – Dale)

No universo de The Walking Dead os governos ruíram, as leis formais já não servem para mais nada e o único imperativo de efeito em meio à turbulência vigente gira em torno das certezas (ou falta delas) que cada um carrega na hora de definir limites entre o que seria moralmente certo e errado a se fazer num mundo radicalmente novo e, sobretudo, mortal. Considerando esse cenário, o que a série buscou e mostrou até agora é muito mais do que o começo da angustiante jornada de seus personagens. Evidenciou-se como o homem reage quando o mundo até então existente se dissolve e a decisão de seguir em frente tentando sobreviver ou desistir de tudo se faz urgente e deve ser priorizada frente ao choque evidente as possíveis crenças e expectativas que cada um deles nutre e torno de um único objetivo. (“Não sou um crenteAcho que preferi colocar minha fé na família, nos amigos e no meu trabalho… Mas, agora preciso de algum sinal que nos ajude a continuar.” – Rick Grimes)

Em meio a isso tudo, o espectador se depara com as divergências de cada um desses humanos (heróis?), o que favorece entendimentos e desentendimentos. Em meio a um apocalipse zumbi qualquer decisão deve ser tomada com base em fatores de relevância, entretanto o que é relevante quando há envolvimento de diversas formas de pensamento e diversas histórias diferentes que, em determinado momento de tempo, acabam por colidir? Você consegue imaginar-se em situação de total falta de segurança, onde não há garantias dentro ou fora de lugares fechados, e tendo que conviver diariamente com pessoas com as quais não escolheu estabelecer qualquer tipo de vínculo? Pois é! Todos ali almejam sobreviver, entretanto a sobrevivência se faz através de vieses diferentes para cada um deles. (“Não posso dizer que entendo os planos de Deus. Mas quando Cristo prometeu a ressurreição dos mortos, eu só pensei que ele teria algo um pouquinho diferente em mente”. – Herschel Greene)

O episódio piloto começa com o Xerife Rick Grimes despertando de um coma, após internação por ter levado um tiro em uma ação, e encontrando um mundo diferente daquele que deixou. O hospital em caos e as ruas próximas já mostram o que espera por Rick. O improvável aconteceu e ele não sabe disso, mas precisará habituar-se e encontrar meios de, segundo sua vontade, buscar por sua mulher e seu filho. Isso remete a um dos primeiros dilemas apresentados por TWD: o recomeço que se mostra uma constante na série. (“Esse som que você ouve, é Deus rindo enquanto você faz planos.” – Daryl Dixon)

Vemos, no decorrer dos episódios, a liderança do grupo ser disputada por Shane e Rick, primeiro de forma mascarada, com um sempre enaltecendo as atitudes do outro, e depois mais descaradamente, resultando na morte do mais forte fisicamente, porém de mentalidade mais arredia.  Vemos o ego centrado de Dale fazendo sempre o contraponto entre os extremos de pensamentos que ecoam no grupo e tentando, com fracasso muitas das vezes, minimizar atitudes impensadas e que poderiam ter resultados graves ou prejudiciais à moral do grupo. Vemos um sujeito bruto e grosseiro como Daryl Dixon, inflar em uma sede de vingança atroz pela suposta morte do irmão mais velho, abandonado pelo grupo com poucas condições de sobrevivência, ceder espaço ao sujeito interessado que investe na busca por uma garotinha perdida na floresta e cujas atitudes subseqüentes revelam, em meio àquela revolta toda, um sujeito de boa índole. Vemos personalidades extremamente egoístas, como Andrea e o pequeno Carl, voltados quase que a maior parte do tempo para suas necessidades pessoais, atrapalhando por muitas vezes as decisões do grupo e interferindo nos resultados dessas. Além disso, uma série de outras questões: a mãe que perde a filha e precisa se mostrar forte para não ser deixada pra trás ou desconsiderada pelos demais, a mulher grávida que desconhece quem é o pai de seu filho, um velho fazendeiro que se vê obrigado a ceder parte de seu espaço para um grupo de desconhecidos, o amor que nasce entre um jovem casal… Tudo isso rodeado pelo cheiro da podridão dos zumbis que rondam o mundo, e pelo cheiro da podridão de alguns pensamentos daqueles que rondam os zumbis. (Rick: Então você acredita em chupa-cabras? Daryl: E você acredita em pessoas mortas andando por aí?!)

Entre idas e vindas, mortes e aparições, a série caminha agradando segundo estatísticas divulgadas pelo AMC (canal responsável pela série) a um público cada vez maior.  Em sua segunda temporada, o grupo de sobreviventes encontrou abrigo em uma fazenda onde diversas tramas se desenvolveram, configurando a participação de novos e atuantes personagens. Porém, a fazenda que julgavam segura, sofreu uma invasão de zumbis e foi preciso deixar o local em busca de segurança. É nesse ponto que a história encontra-se estacionada. A série encontra-se atualmente em intervalo após sua segunda temporada. As gravações da terceira temporada iniciaram-se na semana passada e sua estréia está programada para novembro deste ano.

FICHA TÉCNICA:

Elenco: Jon Bernthal, Jeffrey DeMunn, Laurie Holden, Michael Rooker, Sarah Wayne Callies, Andrew Lincoln, Madison Lintz, Norman Reedus, entre outros.

Direção: Frank Darabont.
Roteiro: Frank Darabont, baseado na HQ de Robert Kirkman e Tony Moore.

O que foi narrado aqui é apenas uma ‘pincelada’ dos diversos aspectos psicológicos que podem ser encontrados em The Walking Dead. O que se vê, de fato, é muito mais; são tramas riquíssimas em conteúdo enrustido a ser explorado. A série estreou no Brasil em Novembro de 2010 e é exibida com seu título original no Brasil, pelo canal a cabo FOX, toda terça feira, às 22:00, com reprises durante a semana. Conforme mencionado no artigo, por estar em intervalo entre uma temporada e outra,os episódios exibidos atualmente são reprises e a reestréia encontra-se programada para Novembro de 2012.

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Sou freqüentadora assídua de locadoras de vídeo desde o ano de 1987, quando tivemos o primeiro vídeo-cassete em casa. Me recordo bem do aparelho, um Panasonic pesadão trazido do ‘estrangeiro’, que não era transcodificado e era raro um filme que ele exibisse em suas cores originais; a maioria ganhava tons verdes mesclados ao rosa, mas isso não me importava. Naquela época, uma fita VHS era caríssima e não as encontrávamos à venda facilmente, como acontece hoje com os DVDs. Era comum que as pessoas recorressem à locação e a cada final de semana lá estava eu com uma remessa de filmes em casa pra assistir. Essa era minha diversão, sempre foi. Acompanhei a migração do VHS para DVD, e isso não gerou problema no mercado: a maior parte das locadoras foi atualizando gradativamente seus acervos e atendendo bem à clientela.

Hoje tudo mudou. O advento da TV a cabo (que eu não desmereço de forma alguma, pois é via de salvação, uma vez que a programação de TVs abertas vai de mal à pior!) atrelado ao advento da TV ‘a gato’ e às facilidades de download, destituíram as locadoras de vídeo. A maioria das locadoras de bairro está arriando suas portas, pois não há mais espaço para elas no mercado; não há lucro e nem arrecadação que justifique que se mantenham em atividade, por isso colocam o acervo à venda antes de se verem obrigadas a decretar falência. Restam apenas as locadoras maiores, que geralmente atendem pela rede e já carregam todo um estigma comercial (inclusive patrocinadores), o que faz com que consigam sobreviver.

No meu parecer a situação é estranha, e apresenta dois lados de uma mesma moeda. Vejo com pesar esse tipo de situação, pois cresci esperando pelas sextas à tarde ou sábados pela manhã para visitar a locadora perto de casa e garantir meu final-de-semana-feliz. De certa forma, as locadoras representavam uma possibilidade de divertimento barato e de última hora. Para aquelas pessoas que não haviam programado nada de diferente pra fazer, e buscavam apenas relaxar em frente à TV, ao ligar esta e só encontrar bobagem, havia as locadoras com diversas opções de filmes, e que podiam ser pagos somente na ocasião da devolução. Desse modo, dava pra escapar do marasmo da televisão mesmo que não se tivesse um centavo. Em contrapartida, não há como negar que o fato de muitas locadoras fecharem foi, para nós cinéfilos e colecionadores, uma forma de adquirir algumas raridades esgotadas no mercado e por preço baixo, no caso das que venderam seus filmes avulsos.

Aqui perto de casa, de Junho pra cá, duas locadoras fecharam e os filmes foram vendidos por unidade e a preço de banana. Uma delas operava no mesmo lugar há exatos vinte e dois anos! Eu estive nas duas e conversei com as donas, que demonstravam alguma insatisfação pelo negócio não ser mais lucrativo como antes e pelo fato de precisarem fechar por conta disso; porém, nenhuma lamentação por estarem se desfazendo dos filmes. Sem querer julgar (gosto é gosto!) eram apenas donas de locadoras, pessoas que gerenciavam um negócio que deixou de gerar lucro. Não havia nenhum apreço pelos filmes ou mesmo noção do material do qual elas dispunham em acervo. Pra ilustrar isso, em uma dessas locadoras, a mais antiga e que, conseqüentemente, disponibilizava filmes mais antigos, eu comprei um filme que procurava há anos por 5,00, e quando cheguei em casa, pesquisando na Internet encontrei sujeitos que dizem-se colecionadores vendendo o mesmo filme pelo valor de 100,00. Uma dessas donas, espantada pelo fato de eu gostar tanto de filmes, chegou a me confessar que ela mesma não gostava e não tinha o hábito de assistir. Juro que eu não acreditei! A pessoa opta por abrir uma locadora de vídeo e abre; mantém o negócio por vinte e dois anos e diz não gostar de filmes?… Estranho isso… Mas o gari também não deve gostar de lixo…

Disso tudo, apenas uma pequena observação: ganham alguns poucos colecionadores como eu, que pude adquirir uma remessa de títulos que estavam esgotados (considerados fora de linha pelas distribuidoras) e eu procurava havia muito tempo, enriquecendo minha coleção; mas perde a população local que deixa de contar com a disponibilidade daquele serviço, tendo que sujeitar-se ao que a televisão quiser empurrar-lhe pela goela. E as donas de locadoras?! Provavelmente vão ser donas de alguma outra coisa que lhes traga devido retorno financeiro.

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Mais que psicológica, essa também uma crítica social e contém spoilers sobre o filme.

“Preciosa – Uma História de Esperança”, filme de Lee Daniels, trata da dinâmica familiar em um contexto doente, para o qual a sociedade insiste em fechar os olhos. Preciosa, personagem que dá título ao filme, nascida Claireece Precious Jones, carrega características comumente condenadas pela sociedade: é gorda, negra e pobre, além de ter sérias dificuldades com aprendizado, e que não hesita em afirmar que seu grande desejo seria ser branca, magra e com longos cabelos. No decorrer do filme podemos perceber o que os reflexos do mundo onde Preciosa foi criada produziram nela. Filha de uma relação problemática, Preciosa é expulsa da escola aos dezesseis anos de idade, ao assumir sua segunda gestão. Após tal expulsão é encaminhada a uma escola alternativa, que pode-se perceber ser destinada a alunos problemáticos, e é lá que Preciosa encontra chances de se descobrir e crescer como pessoa.

É possível afirmar que não se trata de uma obra de ficção qualquer. Vemos no filme um roteiro real que pode ser experimentado em diversos lares, nos quais crianças e adolescente são, constantemente, colocadas em situações de extrema desqualificação e marginalizadas, além de frequentemente expostas à violência sexual, física e psicológica por extensos períodos, sem que ninguém tome partido disso ou sequer tome conhecimento. Apesar de tudo, Preciosa, como muitas meninas que são/foram abusadas, sofrem preconceito e carregam uma história de vida sofrida, não deixa de sonhar, e isso fica evidente nos momentos mais duros de sua vida quando ela simplesmente ‘se desliga’ da situação ruim experimentada e envereda pelo meio da fantasia, usando claramente um mecanismo de defesa que é comum a todos nós (apesar de não vermos a coisa desta forma tão óbvia).

Conforme mencionei, Preciosa é expulsa da escola devido a uma segunda gestação. Segunda gestação esta de um filho que é de seu pai, fruto de um estupro. No decorre do filme, descobrimos que abusos sexuais são comuns na vida da personagem desde os três anos de idade e talvez seja esse o motivo de todos os problemas sociais apresentados por ela. Preciosa vive com a mãe que a culpa pelo abandono do pai, mas não é só isso. Há negligência por parte da mãe que nutre um ódio doentio contra a filha, pois acredita que a adolescente, desde criança, seria concorrente nas relações sexuais com o pai. Essa mãe, uma parasita que nada faz e sobrevive devido à pensão que a filha de Preciosa recebe do estado, por culpá-la pelo fato do marido a ter abandonado, obriga Preciosa a dar-lhe o prazer que o marido daria se estivesse ali. Vemos aí uma cena de sutil alusão a uma relação incestuosa, porém não menos chocante, entre muitas outras que o filme mostra. A grande verdade é que, com toda essa opressão, Preciosa busca amar, apesar de nunca ter experimentado o amor verdadeiro. (“O amor não fez nada por mim. O amor me bateu, me violentou, me chamou de animal, me fez sentir inútil, me fez adoecer.” – Preciosa)

Ao ingressar na nova escola e precisar de acompanhamento psicológico descobrimos que Mongo, apelido da primeira filha de Preciosa, é portadora de Síndrome de Down (apelido foi escolhido devido à condição da criança), o que aumenta ainda a rejeição da avó. No decorre do filme, Preciosa consegue desenvolver-se tanto intelectual quanto socialmente a partir do contato com as colegas e atenção dispensada pela professora, Srta. Blu Rain. (“Certas pessoas tem luz que brilha para os outros. Acho que elas estiveram em um túnel e, nesse túnel, e nesse túnel a única luz que tinham estava no interior delas. E então, muito tempo depois de terem escapado desse túnel, ainda brilham para todos os outros.” – Preciosa, referindo-se à professora) Descobrimos que muitas vezes o ser humano precisa apenas de alguém que o ouça e se preocupe com ele.

Esta inserção escolar é o alicerce para a reorientação da história de vida de Preciosa dando-lhe os meios e encaminhamentos necessários para que reorganizasse e para enfrentar sua realidade que já não era fácil e torna-se ainda pior com a descoberta de que o pai morreu vítima de AIDS. (“Morrer não me preocupa. Tenho que me preocupar em como criar essas crianças.” – Preciosa) Em meio a isso, faz essencial também a ajuda da Srta. Weiss, em uma performance quase irreconhecível de Mariah Carey, que insiste em um acompanhamento terapêutico, dando à personagens meios de enfrentar sua realidade e, inclusive, confrontar-se com a mãe (em mais uma cena que choca pelo relato que a mãe faz dos abusos que a filha sofreu e da forma como estes abusos começaram).

O filme é sensacional e merecedor de todos os prêmios que recebeu. A realidade crua para a qual muitos de nós fechamos os olhos. Eu que tenho o hábito de assistir filmes com freqüência me surpreendi comigo mesma ao dar um pulo da cadeira em uma cena onde a mãe de Preciosa atira seu bebê recém nascido em cima de uma poltrona. Fazia tempos que um filme não me levava a reações desse tipo, onde eu mesma pude ver minha indignação com a atitude da mulher, para depois, ao término do filme, me surpreender com a evolução e superação vivenciada por Preciosa. Ao som de “I Can See In Color”, na jornada de Preciosa que segue sua vida de posse dos filhos e maior autonomia apesar das seqüelas, que possamos buscar todos nós ver em cores também, mesmo com todas as dificuldades e percalços oferecidos pela árdua tarefa diária de viver.

SINOPSE:

No Harlem, a jovem Claireece -Precious- Jones (Gabourey Sidibe) sofre as mais diversas privações. Abusada pela mãe, violentada pelo pai e grávida de seu segundo filho, é convidada a frequentar uma escola alternativa, na qual vê a esperança de conseguir dar um novo rumo à sua vida.

Ficha Técnica:

Título original:Precious: Based on the Novel Push by Sapphire

Gênero:Drama

Título original: (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)

Lançamento: 2009 (EUA).

Direção: Lee Daniels.

Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz.

Duração: 110 min.

Prêmios: Oscar 2010 de Melhor Atriz Coadjuvante (Mo’Nique) e Melhor Roteiro Adaptado.

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*Atenção: contém spoillers sobre o filme.

Um misto de drama pessoal que precisava ser resolvido como interesse internacional; ou seria um interesse pessoal desencadeando um drama internacional que deveria ser abafado? Mais que isso! Certamente “O Discurso do Rei”, grande vencedor da última premiação da Academia, e considerado superficialmente um drama político, é muito mais que isso. A princípio, o filme narra a história de Bertie (Colin Firth), mais conhecido como Duque de York. Filho de George V, Rei da Inglaterra.  Bertie sofre de gagueira, e isso vem à tona sempre que há necessidade de falar em público. Reconhecendo tal questão como um problema, Elizabeth (Helena Bonham Carter, dessa vez sob forma humana e centrada, fugindo o estereótipo dos seres mágicos de seu marido), esposa de Bertie, após algum tempo tentando arrumar um médico para curar o marido, decide ir atrás de um misterioso homem, o australiano Lionel Logue (Geoffrey Rush) que, segundo indicações, poderia solucionar o problema. Bertie reluta se consultar com o homem, mas depois acaba cedendo. Curiosamente, entre queixas e soluções, a aproximação dos dois cresce a partir do jeito irreverente de Logue lidar com o Duque: trata-o como um homem normal, como mais um “paciente” seu, quebrando todo o protocolo exigido pela monarquia e fazendo com que a hierarquia, tão valorizada, caia por terra. 

Diversas vertentes para serem analisadas são apresentadas no filme. Em um primeiro ponto, temos, logo na primeira cena, o temor de Bertie ao encarar uma multidão em um pronunciamento público. Nesse momento, esquecemos ao observar a cena que trata-se ali de um futuro rei e sua nação, e passamos a encará-la sob a ótica do enfrentamento do medo, da dificuldade do ser humano comum em fazer aquilo que oferece riscos (por mais que tais riscos sejam visíveis somente aos seus olhos). A gagueira não faz disfunção entre monarquia e plebe; o medo não se faz seletivo, optando por dominar apenas o povo e esquecendo a nobreza… O medo é um fator comum, acessível a todo e qualquer ser humano e que pode vir a vitimar qualquer pessoa!

A partir da preocupação de Elizabeth com a ‘cura’ do problema de Bertie, o filme chega ao ápice ao evidenciar, na figura do rei e seu ‘terapeuta’, as relações humanas e os vínculos de amizades que se fazem despretensiosamente através das diferenças. (“Meu trabalho era fazê-los ter fé nas suas próprias vozes e deixá-los saber que um amigo estava ouvindo. Essa carapuça deve servir em você, Bertie.” – Logue) Ao longo do filme, há diversas cenas que evidenciam que a gagueira do Rei toma as devidas proporções do ambiente que ele ocupa e da situação experimentada: quanto maior o número de observadores, maiores as dificuldades em expressar-se. Em paralelo a isso, crescem as expectativas em torno da figura monárquica; cresce conseqüentemente a gagueira. Com a morte do Rei George V e abdicação de seu irmão David ao trono, a gagueira de Bertie, se não controlada, poderá inviabilizar seu reinado e levá-lo à renúncia, ainda que ele tenha direito legítimo ao trono na linha de sucessão e possua caráter e educação compatíveis com os desafios do cargo.

A relação entre Bertie e Logue é, no mínimo, curiosa: Logue precisou ganhar a confiança de Bertie. Para fazer isso, ele teve de estabelecer uma relação de igualdade entre eles. E essa não foi uma tarefa simples, já que a confiança de um rei não é algo que se consegue obter de modo fácil ou rápido, ainda mais quando está sendo exigida a remoção da hierarquia. Além disso, parecia existir uma arrogância britânica bastante peculiar em Bertie, exigindo cada vez mais irreverência de Logue, que supera-se a cada diálogo. Este foi um teste crucial para a habilidade terapêutica de Logue. (“Por favor, não faça isso. – Logue, quando Bertie faz menção de fumar. “Meus médicos dizem que isso relaxa a garganta.” – Bertie “São idiotas.” – Logue “São médicos da corte!” – Bertie “São oficialmente idiotas, então.” – Logue) Como em um ciclo, ao mesmo tempo, as atitudes ‘desaforadas’ de Logue são cruciais para a dedicação de Bertie ao tratamento.

Porém, mesmo envolto em toda a aura real, percebe-se que Bertie reconhece as diferenças, apesar de nem sempre vê-las com humildade (“Se fôssemos iguais eu não estaria aqui. Estaria em casa com a minha esposa” – Bertie); assim como admite também a necessidade do tratamento, por mais que este não lhe pareça adequado ou convencional. O rei vê como necessário que as distâncias sejam encurtadas, admite a necessidade de agir como pessoa comum ali naquele consultório também comum,  para que seu tratamento possa surtir efeito; e cria vínculos de identificação até mesmo com as paredes do ambiente de Logue, que colaboram para seu desenvolvimento e tratamento.

Sem a relação de confiança e igualdade, sem o laço de amizade que havia entre eles, a transformação de Bertie não teria sido possível. Isso aponta uma lição para médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, e demais profissionais da saúde: títulos pouco representam, doutores; não é a autoridade que fornece os fundamentos para uma boa relação com o paciente e o sucesso em seu tratamento e recuperação, mas sim o vínculo de confiança e de igualdade que conseguimos estabelecer com ele. Sem isso, o conhecimento técnico e científico, que é  crucial para o sucesso de um tratamento,  torna-se inaplicável.

O que vemos então não é um homem que foi curado; vemos um homem que aprendeu a aceitar e  lidar com sua dificuldade.  Bertie, ao abandonar o irrealizável desejo de se tornar outra pessoa, paradoxalmente conseguiu a transformação de que tanto precisava, dando-se conta de que, embora a cura não fosse possível, era possível aprender a conviver melhor com seus limites. (“Esqueça tudo e fale comigo. Fale comigo como um amigo.” – Logue) Ao fim, ele percebeu que há sempre uma coisa pela qual nunca devemos deixar de agradecer: o fato de sermos nós mesmos e não outra pessoa.

…E, após o discurso, acompanhado da família na sacada de seu castelo, ao som da 7ª Sinfonia de Beethoven, acena vitorioso um Rei gago que, amparado por palavras certas e mãos hábeis e acolhido por fortes laços de companheirismo, conseguiu dizer a que veio.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The King’s Speech

Gênero: Drama

Duração: 1 hr 58 min

Atores: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.

Lançamento: 2010

Distribuidora: Paris Filmes

Direção: Tom Hooper

Roteiro: David Seidler

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop

Premiação – Oscar 2011: Melhor Filme, Melhor Diretor (Tom Hooper), Melhor Ator (Colin Firth) e Melhor Roteiro Original.

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Aparentemente esse é um filme banal, uma comediazinha em meio a generosa safra de muitas outras, porém, as aparências enganam! Há muitos aspectos importantes no filme Click, e eles vão desde a contextualização social do mundo pós-moderno que habitamos, às relações familiares, que encaramos diariamente.

O início do filme mostra a rotina de uma típica família tradicional urbana de classe média nos dias de hoje: pais em meio a filhos que dominam a tecnologia. Por questões sociais e sonhos de consumo, a família trava uma competição material com a realidade, alimentando a crença de que, para conforto financeiro almejado, o provedor deve mergulhar no trabalho e, a partir disso, conquistar a felicidade que o dinheiro pode comprar.

Mediante a pressão entre escolher viver experiências com a família no presente – mas com restrições econômicas (o que acreditam inviabilizar a felicidade) – ou adiar para o futuro tal contato, na expectativa de que, se arduamente dedicar-se ao trabalho presente, poderá desfrutar da família e da situação financeira estável no futuro, Michael Newman (Adam Sandler), o personagem principal, casado com Donna (Kate Beckinsale) e pai de dois filhos, entra numa crise de estresse ao perceber que não sabe utilizar tantos controles remotos sob a mesa de centro da sala. Frente a tal impasse, Michael sai em busca de um controle remoto que possa substituir todos aqueles, porém devido ao adiantado do horário encontra somente a loja “Cama, Mesa e Além” (Bed, Bath & Beyond) aberta. No interior da loja, deita-se em uma cama de onde avista o setor “Além”. Já neste setor, depara-se com o Sr. Morty (Christopher Walken) que lhe oferece um controle remoto universal especial, que torne sua vida menos complicada e faça tudo por ele. Um detalhe importante: o equipamento não pode ser devolvido. (Michael – “Onde estou? O que é isso?” Sr. Morty – “O menu da sua vida!”)

De posse do controle, Michael passa a poder acelerar sua vida em todos os sentidos, e concentra-se em etapas profissionais, visando chegando mais rápido a patamares elevados, na tentativa de alcançar o tempo onde poderá desfrutar de sua felicidade. Acontecimentos corriqueiros são pulados, a rotina deixa de ser vivenciada… Tudo parece artificial (Donna – “Você ainda vai me amar amanhã?” Michael – “Pra todo o sempre!”) demandando apenas respostas que não tomem tempo. Michael deixa de brincar com os filhos, deixa de discutir com a esposa… Entretanto, a partir das preferências e prioridades apresentadas pelo usuário, o controle se auto-programa. Resultado? Michael perde o ‘controle sobre o controle’: torna-se um ser mecânico, dedicando-se exclusivamente ao trabalho, concentrando-se nas possibilidades de promoções profissionais, contudo, sem encontrar sentido nisto, experimentando profunda angústia por perceber que sua vida passa sem ser vivida. Morrem seus cães, morre seu pai, os filhos crescem, a esposa se divorcia dele, e ele não presencia nenhum destes processos ou ciclos.

O tema central do filme é a perda do sentido da vida no tumulto da crise do mundo pós-moderno. Discute o problema enfrentado por centenas de pessoas que vivem em grandes centros urbanos: a tensão decorrente do paradigma entre a competição material em busca da felicidade e a perda do sentido da vida no decorrer desta competição. Imerso no pragmatismo materialista, no relativismo moral, em relações marcadas pelo individualismo e egocentrismo, o Ser Humano contemporâneo vive uma experiência de nilsmo em seu cotidiano. Nesta crise de valores e de referenciais, contextualizada no filme, é discutido seu problema central: o sentido da vida. Diante da irracionalidade do adiantamento dos ciclos naturais de vida, acelerando o morrer, o personagem central encontra o sentido da vida: a existência plena, baseada em valores humanos e solidários. Encarando tudo de forma mais leve, trata de uma sátira ao modo de vida contemporâneo, ou ao viver marcado por um não viver, aproximando o homem daquilo que sempre foi um mistério com o qual ele sempre lutou e nunca aceitou: a morte!

Sabendo disso ou não, com a misteriosa experiência de Michael em acelerar a vida, deixando de vivê-la, e seu confronto final com a morte, o público é convidado a abraçar o sentido da vida; o próprio viver, diante a iminência do morrer. Em paralelo, reflete-se sobre a busca da felicidade, o desconhecimento do seu caminho, a negligência da verdade interior, a perda da vida na tentativa de controlá-la.

Diferente de outras obras mais filosóficas, cuja mensagem encontra-se claramente em seus diálogos, Click pode surpreender em seu contexto geral; um quebra-cabeças a ser montado por quem o assiste. Analisamos a mensagem principal do filme (“Cada escolha que fazemos, decepcionamos alguém… Só temos que ter cuidado para não decepcionar as pessoas erradas!” – Michael) e, ao som de “Making Love out of Nothing at All”,  do Air Supply, nós viajamos com Michael, nessa jornada estranha, aparentemente absurda, porém repleta de decobertas.

FICHA TÉCNICA

Diretor: Frank Coraci

Elenco: Adam Sandler, Kate Beckinsale, Christopher Walken, Sean Astin, David Hasselhoff, Jennifer Coolidge.

Produção: Jack Giarraputo, Steve Koren, Neal H. Moritz, Mark O’Keefe, Adam Sandler

Roteiro: Jack Giarraputo, Tim Herlihy, Steve Koren, Mark O’Keefe, Adam Sandler

Fotografia: Dean Semler

Trilha Sonora: Teddy Castellucci

Duração: 105 min.

Ano: 2006

País: EUA

Gênero: Comédia

Cor: Colorido

Estúdio: Columbia Pictures Corporation / Revolution Studios / HappyMadison Productions / Original Film

Classificação: Livre

SINOPSE

Michael Newman (Adam Sandler) é casado com Donna (Kate Beckinsale), com que tem Ben (Joseph Castanon) e Samantha (Tatum McCann) como filhos. Michael tem tido dificuldades em ver os filhos, já que tem feito serão no escritório de arquitetura em que trabalha no intuito de chamar a atenção de seu chefe (David Hasselhoff). Um dia, exausto devido ao trabalho, Michael tem dificuldades em encontrar qual dos controles remotos de sua casa liga a televisão. Decidido a acabar com o problema, ele resolve comprar um controle remoto que seja universal, ou seja, que funcione para todos os aparelhos eletrônicos que sua casa possui. Ao chegar à loja Cama, Banho & Além ele encontra um funcionário excêntrico chamado Morty (Christopher Walken), que lhe dá um controle remoto experimental o qual garante que irá mudar suaa vida. Michael aceita a oferta e logo descobre que ela realmente é bastante prática, já que coordena todos os aparelhos. Porém Michael logo descobre que o controle tem ainda outras funções, como abafar o som dos latidos de seu cachorro e também adiantar os fatos de sua própria vida.

***

Para acesso a análise anterior do PsychoMovies (Big Fish), clique aqui.

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Obs.:

Dessa vez a observação vem antes do artigo… Tomando como base o fato da minha profissão não ser novidade pra ninguém e fugindo da hipótese de escrever de forma muito pessoal; agregando isso à minha vertente profissional e a minha veia cinéfila, decidi atrelar meu olhar à análise técnica de alguns filmes que envolvem conteúdo psicológico. Este artigo inaugura a Seção Psycho-Movies, que trará esporadicamente a análise de um filme (independente de gênero) que envolva esse tipo de temática.

*Atenção: contém spoliers sobre o filme.

 

De certa forma, a primeira cena do filme “Peixe Grande E Suas Histórias Maravilhosas” (título em português) já cativa e intriga. Ela mostra o grande peixe que dá nome ao filme; grande não somente em proporções, mas também em esperteza, considerando o fato de nunca ter se deixado pescar. Junto ao peixe conhecemos a primeira das metáforas da obra: os peixes crescem de acordo com o espaço de água de que dispõem. Assim são as pessoas… Por mais medíocre que um ser humano pareça, se ele conseguir espaço e oportunidade para mostrar-se e alcançar algum tipo de evolução, tem grandes chances de crescimento. E o peixe do filme é exatamente Ed Bloom encarregado por si próprio de suprir todas as suas ambições fantasiosas e ir sempre além de onde se encontra.

A história se passa através de narrativas de Ed que, acamado e em seus últimos momentos, insiste em apresentar a vida como uma maravilhosa fantasia, abusando de criatividade, situações mágicas e personagens quase mitológicos. Essa atitude de Ed incomoda seu filho Will Bloom que, por ser já um adulto, não se encanta mais com as histórias do pai. Temos então, um filho frustrado por não conseguir extrair do pai uma história que possa ser considerada real; em contrapartida, temos um pai frustrado com o filho por este insistir em ser um sujeito normal, que abre mão da fantasia em prol da realidade (A gente passa anos tentando corromper uma criança para ela crescer perfeitamente bem.” – Ed Bloom).

Ed tem fascinação por água. Diversos momentos do filme remetem a água, seja no rio onde mora o peixe ou na piscina da casa de Ed onde passava parte de seu tempo. Uma das cenas mais preciosas do filme, portanto, não poderia deixar de se passar em outro local: na banheira de casa. Na semana de sua morte, a esposa Sandra encontra Ed, com roupas, submerso na banheira. Ambos emocionam-se. (“Eu estava secando” – Ed Bloom). Essa cena denota a falta que Ed sentia de poder desfrutar da vida como antes, a necessidade extrema do personagem de poder mergulhar no mundo com a força que apresentava antes de ser acometido pela doença que o consome.

Talvez Ed esteja perdendo até mesmo sua auto-confiança; a mesma auto-confiança que o fez, quando menino, olhar no olho da bruxa… Em uma estripulia de meninos, Ed bate à porta de uma bruxa para desafiá-la e mostrar coragem aos amigos. A bruxa força que seus amigos olhem em seu olho direito e vejam o derradeiro momento de suas mortes. Já Ed recebe dela a opção de escolha e opta por encarar. (“Saber como você vai morrer pode ser bom e ruim. Ruim porque você pode enlouquecer se só pensar naquilo, mas por outro lado, você vai saber que sobreviverá a todo o resto.” – Ed Bloom) De fato, isso muda tudo.  Ele cresce em confiança e conquista tudo a partir de então…

Ciente de suas possibilidades, Ed decide deixar de ser um ‘peixe grande em aquário pequeno’. Usando dessa frase, alia-se ao gigante Karl, a personificação de suas ambições, e segue em sua jornada mágica.

No caminho, uma bifurcação na estrada o leva à Cidade de Spectro. Lá, Ed tem seus sapatos roubados por uma menina e encontra habitantes que fazem da acomodação o único motivo que os prende ao conforto da cidade. Confrontado com essa hipótese, ele escolhe seguir viagem, mesmo sabendo das dificuldades que encontrará com os pés desnudos. De volta à estrada, em seu reencontro com Karl ao ser questionado devido à falta de sapatos ele consegue intrigar mais uma vez (Karl – “O que aconteceu com seus sapatos?” Ed – “Foram na frente.”) Mais adiante no filme tomamos conhecimento de um segundo momento que o leva à mesma cidade e Ed chega à conclusão de que na vez anterior em que esteve lá ‘era cedo demais’ e, nessa segunda vez, ‘é tarde demais’.

Além de Spectro a aventura continua! Ed chega a um circo onde conhece a mulher de seus sonhos e promete a si mesmo que se casará com ela “Dizem que o tempo para quando você conhece o amor da sua vida. O que eles não dizem é que quando volta, volta mais rápido para alcançar” – Ed Bloom). Essa cena é impressionante e remete à sensação que todos temos mediante à paixão. Essa parte da aventura é contada de forma mágica por Ed para sua nora Josephine, fomentando a admiração que a moça nutre por ele.

Os personagens mesclam-se em situações fantasiosas, os sonhos de Ed vagam por mundos obscuros que todos nós conhecemos bem. As aventuras de Ed, desde a infância até a morte, dão ao filme um tom fabuloso; é como folhear um livro e encontra a nós mesmos em cada página, tamanhas as associações que podemos fazer com a vida cotidiana. Como se isso não bastasse, assistir “Big Fish” é sempre uma novidade; cada vez que revemos descobrimos algo novo e nos vemos como protagonistas de um mergulho qualquer… Entre armadilhas psicológicas e clichês fenomenais, somos sugados para o mesmo rio onde nada o peixe.

Por explorar magistralmente o imaginário enrustido em cada ser humano e o leque de possibilidades que ele oferece, “Big Fish” pode ser o que quiser… Pode ser uma história de pai e filho… Pode ser uma discussão entre imaginação e realidade…Pode ser um elogio à oralidade das histórias… Pode ser o que cada espectador permitir que seja. Cada momento torna-se único, como em uma obra de arte, todos engendrados em um objetivo: fazer com que Will compreenda o pai antes de sua morte. Destaque para o desfecho do filme, a ligação definitiva entre pai e filho, e a coroação da primeira e mais importante história que ouvimos: a do Peixe Grande, ao som de “Man of The Hour”, do Pearl Jam. (“Um homem conta suas histórias tantas vezes… que se torna as histórias. Elas sobrevivem a ele. E desta forma, ele se torna imortal.” – Will Bloom)

FICHA TÉCNICA:

 

Diretor: Tim Burton

Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Jessica Lange, Danny De Vito, Billy Crudup, Marion Cottilard, Helena Bonham Carter, Miley Cyrus.

Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Richard D. Zanuck

Roteiro: John August, baseado em romance de Daniel Wallace

Fotografia: Philippe Rousselot

Trilha Sonora: Danny Elfman

Duração: 125 min.

Ano: 2003

País: EUA

Gênero: Drama

Cor: Colorido

Estúdio: Columbia Pictures Corporation

 

SINOPSE:

Edward Bloom (Albert Finney) sempre foi um contador de histórias sobre sua extravagante vida quando jovem (Ewan McGregor), quando seu desejo de viajar o levou de uma pequena cidade no Alabama para uma volta ao mundo. Suas explorações místicas variam do divertimento ao delírio, quando conta histórias sobre gigantes, feiticeiras e duas cantoras gêmeas siamesas. Com suas narrações exageradas, Bloom encanta a quase todos que encontra, exceto seu filho Will (Billy Crudup). Quando sua mãe Sandra (Jessica Lange) tenta aproximá-los, Will precisa aprender a separar a realidade da ficção conhecendo os grandes feitos e derrotas de seu pai.

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