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Posts Tagged ‘o discurso do rei’

*Atenção: contém spoillers sobre o filme.

Um misto de drama pessoal que precisava ser resolvido como interesse internacional; ou seria um interesse pessoal desencadeando um drama internacional que deveria ser abafado? Mais que isso! Certamente “O Discurso do Rei”, grande vencedor da última premiação da Academia, e considerado superficialmente um drama político, é muito mais que isso. A princípio, o filme narra a história de Bertie (Colin Firth), mais conhecido como Duque de York. Filho de George V, Rei da Inglaterra.  Bertie sofre de gagueira, e isso vem à tona sempre que há necessidade de falar em público. Reconhecendo tal questão como um problema, Elizabeth (Helena Bonham Carter, dessa vez sob forma humana e centrada, fugindo o estereótipo dos seres mágicos de seu marido), esposa de Bertie, após algum tempo tentando arrumar um médico para curar o marido, decide ir atrás de um misterioso homem, o australiano Lionel Logue (Geoffrey Rush) que, segundo indicações, poderia solucionar o problema. Bertie reluta se consultar com o homem, mas depois acaba cedendo. Curiosamente, entre queixas e soluções, a aproximação dos dois cresce a partir do jeito irreverente de Logue lidar com o Duque: trata-o como um homem normal, como mais um “paciente” seu, quebrando todo o protocolo exigido pela monarquia e fazendo com que a hierarquia, tão valorizada, caia por terra. 

Diversas vertentes para serem analisadas são apresentadas no filme. Em um primeiro ponto, temos, logo na primeira cena, o temor de Bertie ao encarar uma multidão em um pronunciamento público. Nesse momento, esquecemos ao observar a cena que trata-se ali de um futuro rei e sua nação, e passamos a encará-la sob a ótica do enfrentamento do medo, da dificuldade do ser humano comum em fazer aquilo que oferece riscos (por mais que tais riscos sejam visíveis somente aos seus olhos). A gagueira não faz disfunção entre monarquia e plebe; o medo não se faz seletivo, optando por dominar apenas o povo e esquecendo a nobreza… O medo é um fator comum, acessível a todo e qualquer ser humano e que pode vir a vitimar qualquer pessoa!

A partir da preocupação de Elizabeth com a ‘cura’ do problema de Bertie, o filme chega ao ápice ao evidenciar, na figura do rei e seu ‘terapeuta’, as relações humanas e os vínculos de amizades que se fazem despretensiosamente através das diferenças. (“Meu trabalho era fazê-los ter fé nas suas próprias vozes e deixá-los saber que um amigo estava ouvindo. Essa carapuça deve servir em você, Bertie.” – Logue) Ao longo do filme, há diversas cenas que evidenciam que a gagueira do Rei toma as devidas proporções do ambiente que ele ocupa e da situação experimentada: quanto maior o número de observadores, maiores as dificuldades em expressar-se. Em paralelo a isso, crescem as expectativas em torno da figura monárquica; cresce conseqüentemente a gagueira. Com a morte do Rei George V e abdicação de seu irmão David ao trono, a gagueira de Bertie, se não controlada, poderá inviabilizar seu reinado e levá-lo à renúncia, ainda que ele tenha direito legítimo ao trono na linha de sucessão e possua caráter e educação compatíveis com os desafios do cargo.

A relação entre Bertie e Logue é, no mínimo, curiosa: Logue precisou ganhar a confiança de Bertie. Para fazer isso, ele teve de estabelecer uma relação de igualdade entre eles. E essa não foi uma tarefa simples, já que a confiança de um rei não é algo que se consegue obter de modo fácil ou rápido, ainda mais quando está sendo exigida a remoção da hierarquia. Além disso, parecia existir uma arrogância britânica bastante peculiar em Bertie, exigindo cada vez mais irreverência de Logue, que supera-se a cada diálogo. Este foi um teste crucial para a habilidade terapêutica de Logue. (“Por favor, não faça isso. – Logue, quando Bertie faz menção de fumar. “Meus médicos dizem que isso relaxa a garganta.” – Bertie “São idiotas.” – Logue “São médicos da corte!” – Bertie “São oficialmente idiotas, então.” – Logue) Como em um ciclo, ao mesmo tempo, as atitudes ‘desaforadas’ de Logue são cruciais para a dedicação de Bertie ao tratamento.

Porém, mesmo envolto em toda a aura real, percebe-se que Bertie reconhece as diferenças, apesar de nem sempre vê-las com humildade (“Se fôssemos iguais eu não estaria aqui. Estaria em casa com a minha esposa” – Bertie); assim como admite também a necessidade do tratamento, por mais que este não lhe pareça adequado ou convencional. O rei vê como necessário que as distâncias sejam encurtadas, admite a necessidade de agir como pessoa comum ali naquele consultório também comum,  para que seu tratamento possa surtir efeito; e cria vínculos de identificação até mesmo com as paredes do ambiente de Logue, que colaboram para seu desenvolvimento e tratamento.

Sem a relação de confiança e igualdade, sem o laço de amizade que havia entre eles, a transformação de Bertie não teria sido possível. Isso aponta uma lição para médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, e demais profissionais da saúde: títulos pouco representam, doutores; não é a autoridade que fornece os fundamentos para uma boa relação com o paciente e o sucesso em seu tratamento e recuperação, mas sim o vínculo de confiança e de igualdade que conseguimos estabelecer com ele. Sem isso, o conhecimento técnico e científico, que é  crucial para o sucesso de um tratamento,  torna-se inaplicável.

O que vemos então não é um homem que foi curado; vemos um homem que aprendeu a aceitar e  lidar com sua dificuldade.  Bertie, ao abandonar o irrealizável desejo de se tornar outra pessoa, paradoxalmente conseguiu a transformação de que tanto precisava, dando-se conta de que, embora a cura não fosse possível, era possível aprender a conviver melhor com seus limites. (“Esqueça tudo e fale comigo. Fale comigo como um amigo.” – Logue) Ao fim, ele percebeu que há sempre uma coisa pela qual nunca devemos deixar de agradecer: o fato de sermos nós mesmos e não outra pessoa.

…E, após o discurso, acompanhado da família na sacada de seu castelo, ao som da 7ª Sinfonia de Beethoven, acena vitorioso um Rei gago que, amparado por palavras certas e mãos hábeis e acolhido por fortes laços de companheirismo, conseguiu dizer a que veio.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The King’s Speech

Gênero: Drama

Duração: 1 hr 58 min

Atores: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.

Lançamento: 2010

Distribuidora: Paris Filmes

Direção: Tom Hooper

Roteiro: David Seidler

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop

Premiação – Oscar 2011: Melhor Filme, Melhor Diretor (Tom Hooper), Melhor Ator (Colin Firth) e Melhor Roteiro Original.

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