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Posts Tagged ‘opinião’


subversiva
No transcorrer de minha história nasceu uma profunda paixão pelas palavras. Dos tempos remotos da infância trago a lembrança dos livros intocados na estante. Muitos desses livros pareciam conter um mistério. Do alto de minha pequenez, de onde eu estava, títulos e nomes de autores se embaralhavam numa constelação embaçada de letras. Subia na cadeira e esticava o braço para pegá-los. Queria-os perto de mim. Bastaria consultá-los, como se faz a um oráculo, para que o universo preso àquelas páginas se abrisse aos meus olhos curiosos. Mas eu não os alcançava, muitos deles nunca peguei. Em várias tentativas, só encostei de leve a ponta do dedo em suas lombadas, recolhendo-a em seguida, aveludada de poeira. Assim como uma tumba de faraó inexplorada, nunca soube se tais livros ocultavam tesouros ou maldições, e esta questão ficou gravada em mim, tanto que, hoje, em todos os livros que abro e folheio, busco sempre aqueles que ficaram, ainda perdidos, nas estantes de alguma das  minhas remotas infâncias.
Eu continuo a persegui-los. Porém são esquivos; acossam-me em sonhos e insinuam-se à minha imaginação; me provocam, me atiçam. Como horizontes ou utopias, conduzem-me a lugares desconhecidos e provocam o abandono do que me serviu de amparo. Essa busca é o que me lança para além do que sou e me emancipa dos projetos que criei ou que criaram pra mim e por mim; me faz grande, me faz mais do que eu sou. Talvez seja em  função desse fracasso de posse, que o anseio de compartilhar o que penso pediu entrada em meu espírito. Hoje, escrever me faz aprofundar o que me causa, o que me completa, o que me faz eu. Produzo o que me produz. Assim como o mito das criaturas andróginas que despertaram o ciúme possessivo de Zeus, nesse atravessamento entre razão e fantasia, me vejo condenada à uma eterna busca pela metade que não encontrei, mas que coloquei no papel. E como se a primeira fosse um imã e a segunda limalha, vejo fundirem-se letras e idéias, imantando de ambas uma tensão recíproca. Não há resistência a essa interseção, apenas uma imprecisão qualquer que ganha formas e contornos.
No curso natural de uma vida, meus rabiscos de infância rapidamente desbotam e logo são revitalizados e substituídos pelos novos contornos de juventude que, em seguida, dão lugar à sutileza embrutecida dos traços mais maduros que observo se apagarem com mais velocidade do que antes. A transitoriedade é sutil, porém perene, como um álbum de fotografias amareladas, guardado dentro da gaveta, ou esquecido em cima da estante em meio aos livros do passado. No interior de cada um de nós, estes outros que não somos mais nós, já nos são estranhas figuras. Morrem e ressuscitam, interpenetram-se e complementam-se na composição do tempo em matéria que, por ser atemporal, faz com que os espectros de ontem se condensem aos de hoje, engendrando uma massa dinâmica de momentos transcritos. À medida que envelhecemos, coabitamos outras eras, que não as do presente.
A marcha do punho, ao longo das páginas, deixa seus rastros, faz meus rastros de vivências e de acontecimentos, demarcando meu território e criando o ambiente propício para aqueles que quiserem chegar. Colonizando meus sonhos encontro sempre o avesso da realidade; fincando minhas raízes me deparo com uma carência de olhos abertos para o que está á sua frente; cavando meu espaço me deparo com uma geografia secreta, que não se governa e que não é conhecida por si mesma, mas somente pelos seus efeitos. Copérnico, Darwin, Kant, Goethe, Freud, e demais senhores e senhoras de estirpe, um dia julgados por seus pensamentos e condenados por seus escritos… Aqui nessas veias corre um sangue subversivo com o mesmo teor que em outros tempos vos animou; sangue de quem se arrisca sem esperar por nada, mas sabe que pode encontrar, sabe lá Deus quando, seja lá o que for. Sangue de quem escreve sem medo, sem a sofreguidão dos que se perderam e sem o desespero daqueles que ainda não se encontraram. Escrevo por gosto, por prazer. Vem leitor, emparelha o teu passo ao meu e vê o que há para ser visto; depois, põe no prato da balança tudo aquilo que lhe cabe.  

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“A minha escola não tem personagem; a minha escola tem gente de verdade… Alguém falou do fim do mundo, o fim do mundo já passou. Vamos começar de novo: um por todos e todos por um! O sistema é mau, mas minha turma é legal; viver é foda, morrer é difícil. (…) Chega de opressão! Quero viver a minha vida em paz…”* – Legião Urbana

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…da excessiva devoção à brutal condenação.

Essa não é a primeira vez que exponho conteúdo de cunho religioso aqui, apesar de não ser essa uma preferência minha e por acreditar ser este um fator pessoal. Procuro respeitar todas as religiões, desde que eu não me sinta desrespeitada ou invadida, não necessariamente por religiosidade adversa da minha, mas por pessoas que insistem em mudar meu pensamento ou minha suposta crença. Pelo fato de me conhecer bem e saber perfeitamente que não sou de medir palavras, evito falar sobre este tema extremamente controverso na minha concepção. Religião não se discute, mas já que me chamaram pra briga, aqui estou eu!

Fala-se muito atualmente sobre os males que povoam o mundo, sendo a religião posta em ponto oposto a esses males e considerada possível via de salvação da humanidade. Sendo assim, crescem as religiões como veias propulsoras do bem e com o estigma de fomentadoras dos bons costumes. Bons costumes?!  Como assim, se o ferrenho religioso desrespeita a opção religiosa das demais pessoas e banaliza sua crença?

Percebo que atualmente, expor ser praticante ou simpatizante de determinada religião, para pessoas que seguem em direção oposta e defendem fervorosamente um outro clero, é motivo de pecado mortal e condenação em praça pública. Assim como expressar não estar de acordo com atitudes defendidas por algumas religiões, também o é. Aparentemente voltamos aos tempos medievais! Desta forma, exemplificando, se eu não sou adepta da tua religião eu não mereço respeito. Essa é uma visão errônea, muitas das vezes defendida por pessoas que veem de maneira exacerbada somente a ‘missão santa’ de sua própria religião e desmerecem as demais.

Por ser fato recente, acredito que todos se recordem ainda do ocorrido em Realengo, no Rio de Janeiro, no dia 07 de Abril deste ano, quando um indivíduo invadiu um colégio público, assassinando jovens de forma fria. O sujeito agiu dessa maneira motivado por fanatismo religioso… Mas toda religião defende somente o bem, não é isso que todos pensam? Sim! Defende o bem, desde que este ‘bem’ esteja previamente traçado em sua cartilha. Desta forma, vemos por aí religiões cuja meta é matar ou guerrear contra aqueles que não a seguem; vemos religiões onde aqueles que não se disponibilizam a ofertar a sua igreja uma cota de seu rendimento mensal serão banidos do céu após a morte; vemos religiões onde é necessário que o seguidor abdique de qualquer vaidade para que seja aceito em seu meio; vemos religiões que impõem aos seus praticantes jejuns, períodos de castidade, vestimentas duvidosas e demais atitudes que, sinceramente, fogem completamente à minha aceitação (eu disse aceitação, não entendimento!).

O fanatismo existe e vigora no interior do homem desde que esse apareceu sobre a face da terra. A partir do ilustre advento da religião, seja ela qual for, o fanatismo encontrou um terreno fértil para crescer e amadurecer; escondendo-se das mentes vigilantes por trás de dogmas e práticas aparentemente inocentes. Temos então, como resultado disso, o muçulmano que se explode em nome de Alláh, o fiel católico que vira a cara ou instila seu ódio para praticantes de outras religiões, o “crente” que chuta imagens de santos ou invade centros de macumba para promover a conversão ou ‘aperta o cinto’ no final do mês porque deu ao pastor dez por cento de seu salário, o macumbeiro que xinga ou lança maldições aos desafetos espirituais; enfim, todas essas formas de fanatismo estão por aí, gritando para quem quiser ouvir e mais fortes a cada intervalo curto de tempo (infelizmente!).

Convém ressaltar aqui que instrução e inteligência são coisas completamente diferentes. E ao envolver-se religião no mesmo meio, fica muito mais difícil imaginar coisas mais antagônicas do que essas, uma vez que, quanto mais inteligente e instruída uma pessoa for, teoricamente, mais capaz de julgar as diferenças entre o certo e o errado ela deve ser.

Toda a história mundial, ao longo de seus muitos anos, encontra-se repleta de exemplos de fanáticos que causaram morte e destruição com suas visões distorcidas de Deus, sim! Além da fé e da dedicação, deve sempre vigorar o bom senso. Deus e o Diabo vivem dentro de cada um, sendo esse seu principal campo de batalha e atuação. Antes de seguir, cegamente, o que diz seu padre, seu pastor, seu pai de santo, seu mulá, ou seja lá qual denominação tenha o sacerdote da fé que você professa; tenha em mente e analise se você faria o que ele pede; verifique até que ponto a atitude sugerida é realmente justa. Aqueles que defendem um Deus deveriam conhecer que, mais do que qualquer outra coisa, Ele deu-nos um cérebro e inteligência. E, em sua ‘infinita sabedoria’, nos forneceu meios para que nos desenvolvêssemos e aprendêssemos como usá-los; ao invés disso o que temos são pessoas ou grupos cometendo sacrilégios homéricos em seu nome e promovendo atrocidades a torto e a direito.

***

Obs.: Eu?! Eu sigo por aí, mantendo a minha religião sem encher o saco de ninguém; e colecionando meus desafetos por não ter medo de mostrar que penso diferente. O que eu faço aos domingos de manhã?! Durmo! Não saio pelas ruas antes das sete horas batendo de porta em porta e perturbando a paz local. Se eu acredito em Deus?! Sim! Mas viro o Capeta, se tentarem cruzar meu caminho… No mais, boa noite, moço(a)!

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