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Posts Tagged ‘psicologia’

Mais que psicológica, essa também uma crítica social e contém spoilers sobre o filme.

“Preciosa – Uma História de Esperança”, filme de Lee Daniels, trata da dinâmica familiar em um contexto doente, para o qual a sociedade insiste em fechar os olhos. Preciosa, personagem que dá título ao filme, nascida Claireece Precious Jones, carrega características comumente condenadas pela sociedade: é gorda, negra e pobre, além de ter sérias dificuldades com aprendizado, e que não hesita em afirmar que seu grande desejo seria ser branca, magra e com longos cabelos. No decorrer do filme podemos perceber o que os reflexos do mundo onde Preciosa foi criada produziram nela. Filha de uma relação problemática, Preciosa é expulsa da escola aos dezesseis anos de idade, ao assumir sua segunda gestão. Após tal expulsão é encaminhada a uma escola alternativa, que pode-se perceber ser destinada a alunos problemáticos, e é lá que Preciosa encontra chances de se descobrir e crescer como pessoa.

É possível afirmar que não se trata de uma obra de ficção qualquer. Vemos no filme um roteiro real que pode ser experimentado em diversos lares, nos quais crianças e adolescente são, constantemente, colocadas em situações de extrema desqualificação e marginalizadas, além de frequentemente expostas à violência sexual, física e psicológica por extensos períodos, sem que ninguém tome partido disso ou sequer tome conhecimento. Apesar de tudo, Preciosa, como muitas meninas que são/foram abusadas, sofrem preconceito e carregam uma história de vida sofrida, não deixa de sonhar, e isso fica evidente nos momentos mais duros de sua vida quando ela simplesmente ‘se desliga’ da situação ruim experimentada e envereda pelo meio da fantasia, usando claramente um mecanismo de defesa que é comum a todos nós (apesar de não vermos a coisa desta forma tão óbvia).

Conforme mencionei, Preciosa é expulsa da escola devido a uma segunda gestação. Segunda gestação esta de um filho que é de seu pai, fruto de um estupro. No decorre do filme, descobrimos que abusos sexuais são comuns na vida da personagem desde os três anos de idade e talvez seja esse o motivo de todos os problemas sociais apresentados por ela. Preciosa vive com a mãe que a culpa pelo abandono do pai, mas não é só isso. Há negligência por parte da mãe que nutre um ódio doentio contra a filha, pois acredita que a adolescente, desde criança, seria concorrente nas relações sexuais com o pai. Essa mãe, uma parasita que nada faz e sobrevive devido à pensão que a filha de Preciosa recebe do estado, por culpá-la pelo fato do marido a ter abandonado, obriga Preciosa a dar-lhe o prazer que o marido daria se estivesse ali. Vemos aí uma cena de sutil alusão a uma relação incestuosa, porém não menos chocante, entre muitas outras que o filme mostra. A grande verdade é que, com toda essa opressão, Preciosa busca amar, apesar de nunca ter experimentado o amor verdadeiro. (“O amor não fez nada por mim. O amor me bateu, me violentou, me chamou de animal, me fez sentir inútil, me fez adoecer.” – Preciosa)

Ao ingressar na nova escola e precisar de acompanhamento psicológico descobrimos que Mongo, apelido da primeira filha de Preciosa, é portadora de Síndrome de Down (apelido foi escolhido devido à condição da criança), o que aumenta ainda a rejeição da avó. No decorre do filme, Preciosa consegue desenvolver-se tanto intelectual quanto socialmente a partir do contato com as colegas e atenção dispensada pela professora, Srta. Blu Rain. (“Certas pessoas tem luz que brilha para os outros. Acho que elas estiveram em um túnel e, nesse túnel, e nesse túnel a única luz que tinham estava no interior delas. E então, muito tempo depois de terem escapado desse túnel, ainda brilham para todos os outros.” – Preciosa, referindo-se à professora) Descobrimos que muitas vezes o ser humano precisa apenas de alguém que o ouça e se preocupe com ele.

Esta inserção escolar é o alicerce para a reorientação da história de vida de Preciosa dando-lhe os meios e encaminhamentos necessários para que reorganizasse e para enfrentar sua realidade que já não era fácil e torna-se ainda pior com a descoberta de que o pai morreu vítima de AIDS. (“Morrer não me preocupa. Tenho que me preocupar em como criar essas crianças.” – Preciosa) Em meio a isso, faz essencial também a ajuda da Srta. Weiss, em uma performance quase irreconhecível de Mariah Carey, que insiste em um acompanhamento terapêutico, dando à personagens meios de enfrentar sua realidade e, inclusive, confrontar-se com a mãe (em mais uma cena que choca pelo relato que a mãe faz dos abusos que a filha sofreu e da forma como estes abusos começaram).

O filme é sensacional e merecedor de todos os prêmios que recebeu. A realidade crua para a qual muitos de nós fechamos os olhos. Eu que tenho o hábito de assistir filmes com freqüência me surpreendi comigo mesma ao dar um pulo da cadeira em uma cena onde a mãe de Preciosa atira seu bebê recém nascido em cima de uma poltrona. Fazia tempos que um filme não me levava a reações desse tipo, onde eu mesma pude ver minha indignação com a atitude da mulher, para depois, ao término do filme, me surpreender com a evolução e superação vivenciada por Preciosa. Ao som de “I Can See In Color”, na jornada de Preciosa que segue sua vida de posse dos filhos e maior autonomia apesar das seqüelas, que possamos buscar todos nós ver em cores também, mesmo com todas as dificuldades e percalços oferecidos pela árdua tarefa diária de viver.

SINOPSE:

No Harlem, a jovem Claireece -Precious- Jones (Gabourey Sidibe) sofre as mais diversas privações. Abusada pela mãe, violentada pelo pai e grávida de seu segundo filho, é convidada a frequentar uma escola alternativa, na qual vê a esperança de conseguir dar um novo rumo à sua vida.

Ficha Técnica:

Título original:Precious: Based on the Novel Push by Sapphire

Gênero:Drama

Título original: (Precious: Based on the Novel Push by Sapphire)

Lançamento: 2009 (EUA).

Direção: Lee Daniels.

Elenco: Gabourey Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Mariah Carey, Lenny Kravitz.

Duração: 110 min.

Prêmios: Oscar 2010 de Melhor Atriz Coadjuvante (Mo’Nique) e Melhor Roteiro Adaptado.

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*Atenção: contém spoillers sobre o filme.

Um misto de drama pessoal que precisava ser resolvido como interesse internacional; ou seria um interesse pessoal desencadeando um drama internacional que deveria ser abafado? Mais que isso! Certamente “O Discurso do Rei”, grande vencedor da última premiação da Academia, e considerado superficialmente um drama político, é muito mais que isso. A princípio, o filme narra a história de Bertie (Colin Firth), mais conhecido como Duque de York. Filho de George V, Rei da Inglaterra.  Bertie sofre de gagueira, e isso vem à tona sempre que há necessidade de falar em público. Reconhecendo tal questão como um problema, Elizabeth (Helena Bonham Carter, dessa vez sob forma humana e centrada, fugindo o estereótipo dos seres mágicos de seu marido), esposa de Bertie, após algum tempo tentando arrumar um médico para curar o marido, decide ir atrás de um misterioso homem, o australiano Lionel Logue (Geoffrey Rush) que, segundo indicações, poderia solucionar o problema. Bertie reluta se consultar com o homem, mas depois acaba cedendo. Curiosamente, entre queixas e soluções, a aproximação dos dois cresce a partir do jeito irreverente de Logue lidar com o Duque: trata-o como um homem normal, como mais um “paciente” seu, quebrando todo o protocolo exigido pela monarquia e fazendo com que a hierarquia, tão valorizada, caia por terra. 

Diversas vertentes para serem analisadas são apresentadas no filme. Em um primeiro ponto, temos, logo na primeira cena, o temor de Bertie ao encarar uma multidão em um pronunciamento público. Nesse momento, esquecemos ao observar a cena que trata-se ali de um futuro rei e sua nação, e passamos a encará-la sob a ótica do enfrentamento do medo, da dificuldade do ser humano comum em fazer aquilo que oferece riscos (por mais que tais riscos sejam visíveis somente aos seus olhos). A gagueira não faz disfunção entre monarquia e plebe; o medo não se faz seletivo, optando por dominar apenas o povo e esquecendo a nobreza… O medo é um fator comum, acessível a todo e qualquer ser humano e que pode vir a vitimar qualquer pessoa!

A partir da preocupação de Elizabeth com a ‘cura’ do problema de Bertie, o filme chega ao ápice ao evidenciar, na figura do rei e seu ‘terapeuta’, as relações humanas e os vínculos de amizades que se fazem despretensiosamente através das diferenças. (“Meu trabalho era fazê-los ter fé nas suas próprias vozes e deixá-los saber que um amigo estava ouvindo. Essa carapuça deve servir em você, Bertie.” – Logue) Ao longo do filme, há diversas cenas que evidenciam que a gagueira do Rei toma as devidas proporções do ambiente que ele ocupa e da situação experimentada: quanto maior o número de observadores, maiores as dificuldades em expressar-se. Em paralelo a isso, crescem as expectativas em torno da figura monárquica; cresce conseqüentemente a gagueira. Com a morte do Rei George V e abdicação de seu irmão David ao trono, a gagueira de Bertie, se não controlada, poderá inviabilizar seu reinado e levá-lo à renúncia, ainda que ele tenha direito legítimo ao trono na linha de sucessão e possua caráter e educação compatíveis com os desafios do cargo.

A relação entre Bertie e Logue é, no mínimo, curiosa: Logue precisou ganhar a confiança de Bertie. Para fazer isso, ele teve de estabelecer uma relação de igualdade entre eles. E essa não foi uma tarefa simples, já que a confiança de um rei não é algo que se consegue obter de modo fácil ou rápido, ainda mais quando está sendo exigida a remoção da hierarquia. Além disso, parecia existir uma arrogância britânica bastante peculiar em Bertie, exigindo cada vez mais irreverência de Logue, que supera-se a cada diálogo. Este foi um teste crucial para a habilidade terapêutica de Logue. (“Por favor, não faça isso. – Logue, quando Bertie faz menção de fumar. “Meus médicos dizem que isso relaxa a garganta.” – Bertie “São idiotas.” – Logue “São médicos da corte!” – Bertie “São oficialmente idiotas, então.” – Logue) Como em um ciclo, ao mesmo tempo, as atitudes ‘desaforadas’ de Logue são cruciais para a dedicação de Bertie ao tratamento.

Porém, mesmo envolto em toda a aura real, percebe-se que Bertie reconhece as diferenças, apesar de nem sempre vê-las com humildade (“Se fôssemos iguais eu não estaria aqui. Estaria em casa com a minha esposa” – Bertie); assim como admite também a necessidade do tratamento, por mais que este não lhe pareça adequado ou convencional. O rei vê como necessário que as distâncias sejam encurtadas, admite a necessidade de agir como pessoa comum ali naquele consultório também comum,  para que seu tratamento possa surtir efeito; e cria vínculos de identificação até mesmo com as paredes do ambiente de Logue, que colaboram para seu desenvolvimento e tratamento.

Sem a relação de confiança e igualdade, sem o laço de amizade que havia entre eles, a transformação de Bertie não teria sido possível. Isso aponta uma lição para médicos, fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, e demais profissionais da saúde: títulos pouco representam, doutores; não é a autoridade que fornece os fundamentos para uma boa relação com o paciente e o sucesso em seu tratamento e recuperação, mas sim o vínculo de confiança e de igualdade que conseguimos estabelecer com ele. Sem isso, o conhecimento técnico e científico, que é  crucial para o sucesso de um tratamento,  torna-se inaplicável.

O que vemos então não é um homem que foi curado; vemos um homem que aprendeu a aceitar e  lidar com sua dificuldade.  Bertie, ao abandonar o irrealizável desejo de se tornar outra pessoa, paradoxalmente conseguiu a transformação de que tanto precisava, dando-se conta de que, embora a cura não fosse possível, era possível aprender a conviver melhor com seus limites. (“Esqueça tudo e fale comigo. Fale comigo como um amigo.” – Logue) Ao fim, ele percebeu que há sempre uma coisa pela qual nunca devemos deixar de agradecer: o fato de sermos nós mesmos e não outra pessoa.

…E, após o discurso, acompanhado da família na sacada de seu castelo, ao som da 7ª Sinfonia de Beethoven, acena vitorioso um Rei gago que, amparado por palavras certas e mãos hábeis e acolhido por fortes laços de companheirismo, conseguiu dizer a que veio.

FICHA TÉCNICA

Título Original: The King’s Speech

Gênero: Drama

Duração: 1 hr 58 min

Atores: Colin Firth, Helena Bonham Carter, Geoffrey Rush, Michael Gambon.

Lançamento: 2010

Distribuidora: Paris Filmes

Direção: Tom Hooper

Roteiro: David Seidler

Produção: Iain Canning, Emile Sherman, Gareth Unwin, Simon Egan e Peter Heslop

Premiação – Oscar 2011: Melhor Filme, Melhor Diretor (Tom Hooper), Melhor Ator (Colin Firth) e Melhor Roteiro Original.

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Obs.:

Dessa vez a observação vem antes do artigo… Tomando como base o fato da minha profissão não ser novidade pra ninguém e fugindo da hipótese de escrever de forma muito pessoal; agregando isso à minha vertente profissional e a minha veia cinéfila, decidi atrelar meu olhar à análise técnica de alguns filmes que envolvem conteúdo psicológico. Este artigo inaugura a Seção Psycho-Movies, que trará esporadicamente a análise de um filme (independente de gênero) que envolva esse tipo de temática.

*Atenção: contém spoliers sobre o filme.

 

De certa forma, a primeira cena do filme “Peixe Grande E Suas Histórias Maravilhosas” (título em português) já cativa e intriga. Ela mostra o grande peixe que dá nome ao filme; grande não somente em proporções, mas também em esperteza, considerando o fato de nunca ter se deixado pescar. Junto ao peixe conhecemos a primeira das metáforas da obra: os peixes crescem de acordo com o espaço de água de que dispõem. Assim são as pessoas… Por mais medíocre que um ser humano pareça, se ele conseguir espaço e oportunidade para mostrar-se e alcançar algum tipo de evolução, tem grandes chances de crescimento. E o peixe do filme é exatamente Ed Bloom encarregado por si próprio de suprir todas as suas ambições fantasiosas e ir sempre além de onde se encontra.

A história se passa através de narrativas de Ed que, acamado e em seus últimos momentos, insiste em apresentar a vida como uma maravilhosa fantasia, abusando de criatividade, situações mágicas e personagens quase mitológicos. Essa atitude de Ed incomoda seu filho Will Bloom que, por ser já um adulto, não se encanta mais com as histórias do pai. Temos então, um filho frustrado por não conseguir extrair do pai uma história que possa ser considerada real; em contrapartida, temos um pai frustrado com o filho por este insistir em ser um sujeito normal, que abre mão da fantasia em prol da realidade (A gente passa anos tentando corromper uma criança para ela crescer perfeitamente bem.” – Ed Bloom).

Ed tem fascinação por água. Diversos momentos do filme remetem a água, seja no rio onde mora o peixe ou na piscina da casa de Ed onde passava parte de seu tempo. Uma das cenas mais preciosas do filme, portanto, não poderia deixar de se passar em outro local: na banheira de casa. Na semana de sua morte, a esposa Sandra encontra Ed, com roupas, submerso na banheira. Ambos emocionam-se. (“Eu estava secando” – Ed Bloom). Essa cena denota a falta que Ed sentia de poder desfrutar da vida como antes, a necessidade extrema do personagem de poder mergulhar no mundo com a força que apresentava antes de ser acometido pela doença que o consome.

Talvez Ed esteja perdendo até mesmo sua auto-confiança; a mesma auto-confiança que o fez, quando menino, olhar no olho da bruxa… Em uma estripulia de meninos, Ed bate à porta de uma bruxa para desafiá-la e mostrar coragem aos amigos. A bruxa força que seus amigos olhem em seu olho direito e vejam o derradeiro momento de suas mortes. Já Ed recebe dela a opção de escolha e opta por encarar. (“Saber como você vai morrer pode ser bom e ruim. Ruim porque você pode enlouquecer se só pensar naquilo, mas por outro lado, você vai saber que sobreviverá a todo o resto.” – Ed Bloom) De fato, isso muda tudo.  Ele cresce em confiança e conquista tudo a partir de então…

Ciente de suas possibilidades, Ed decide deixar de ser um ‘peixe grande em aquário pequeno’. Usando dessa frase, alia-se ao gigante Karl, a personificação de suas ambições, e segue em sua jornada mágica.

No caminho, uma bifurcação na estrada o leva à Cidade de Spectro. Lá, Ed tem seus sapatos roubados por uma menina e encontra habitantes que fazem da acomodação o único motivo que os prende ao conforto da cidade. Confrontado com essa hipótese, ele escolhe seguir viagem, mesmo sabendo das dificuldades que encontrará com os pés desnudos. De volta à estrada, em seu reencontro com Karl ao ser questionado devido à falta de sapatos ele consegue intrigar mais uma vez (Karl – “O que aconteceu com seus sapatos?” Ed – “Foram na frente.”) Mais adiante no filme tomamos conhecimento de um segundo momento que o leva à mesma cidade e Ed chega à conclusão de que na vez anterior em que esteve lá ‘era cedo demais’ e, nessa segunda vez, ‘é tarde demais’.

Além de Spectro a aventura continua! Ed chega a um circo onde conhece a mulher de seus sonhos e promete a si mesmo que se casará com ela “Dizem que o tempo para quando você conhece o amor da sua vida. O que eles não dizem é que quando volta, volta mais rápido para alcançar” – Ed Bloom). Essa cena é impressionante e remete à sensação que todos temos mediante à paixão. Essa parte da aventura é contada de forma mágica por Ed para sua nora Josephine, fomentando a admiração que a moça nutre por ele.

Os personagens mesclam-se em situações fantasiosas, os sonhos de Ed vagam por mundos obscuros que todos nós conhecemos bem. As aventuras de Ed, desde a infância até a morte, dão ao filme um tom fabuloso; é como folhear um livro e encontra a nós mesmos em cada página, tamanhas as associações que podemos fazer com a vida cotidiana. Como se isso não bastasse, assistir “Big Fish” é sempre uma novidade; cada vez que revemos descobrimos algo novo e nos vemos como protagonistas de um mergulho qualquer… Entre armadilhas psicológicas e clichês fenomenais, somos sugados para o mesmo rio onde nada o peixe.

Por explorar magistralmente o imaginário enrustido em cada ser humano e o leque de possibilidades que ele oferece, “Big Fish” pode ser o que quiser… Pode ser uma história de pai e filho… Pode ser uma discussão entre imaginação e realidade…Pode ser um elogio à oralidade das histórias… Pode ser o que cada espectador permitir que seja. Cada momento torna-se único, como em uma obra de arte, todos engendrados em um objetivo: fazer com que Will compreenda o pai antes de sua morte. Destaque para o desfecho do filme, a ligação definitiva entre pai e filho, e a coroação da primeira e mais importante história que ouvimos: a do Peixe Grande, ao som de “Man of The Hour”, do Pearl Jam. (“Um homem conta suas histórias tantas vezes… que se torna as histórias. Elas sobrevivem a ele. E desta forma, ele se torna imortal.” – Will Bloom)

FICHA TÉCNICA:

 

Diretor: Tim Burton

Elenco: Ewan McGregor, Albert Finney, Jessica Lange, Danny De Vito, Billy Crudup, Marion Cottilard, Helena Bonham Carter, Miley Cyrus.

Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks, Richard D. Zanuck

Roteiro: John August, baseado em romance de Daniel Wallace

Fotografia: Philippe Rousselot

Trilha Sonora: Danny Elfman

Duração: 125 min.

Ano: 2003

País: EUA

Gênero: Drama

Cor: Colorido

Estúdio: Columbia Pictures Corporation

 

SINOPSE:

Edward Bloom (Albert Finney) sempre foi um contador de histórias sobre sua extravagante vida quando jovem (Ewan McGregor), quando seu desejo de viajar o levou de uma pequena cidade no Alabama para uma volta ao mundo. Suas explorações místicas variam do divertimento ao delírio, quando conta histórias sobre gigantes, feiticeiras e duas cantoras gêmeas siamesas. Com suas narrações exageradas, Bloom encanta a quase todos que encontra, exceto seu filho Will (Billy Crudup). Quando sua mãe Sandra (Jessica Lange) tenta aproximá-los, Will precisa aprender a separar a realidade da ficção conhecendo os grandes feitos e derrotas de seu pai.

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O ser humano busca vida, clama pela vida e defende a vida; essa é sua natureza, ninguém quer morrer (salvo os suicidas e deprimidos, mas esses não são foco deste artigo!). Entretanto vida é algo complexo e vai além daquilo que habitualmente encaramos como tal. Viver não é acordar pela manhã, almoçar no meio do dia e jantar a noite, cumprindo, além disso, algumas tarefas intermediárias; viver não é nascer, crescer, casar, fazer filhos e esperá-los crescer para ter netos. Isso seria corriqueiro demais, comum demais e não remete a nenhuma individualidade psicológica ou nenhum grande esforço de sabedoria ou personalidade. Se esperamos viver não só cada momento, mas ter uma verdadeira consciência de nossa existência, nossa maior necessidade e mais difícil realização será encontrar um significado em nossas vidas.

Sem dúvidas, muitas pessoas  perderam o desejo de viver, ou pararam de tentá-lo, por terem percebido de que este possível significado lhes escapou. Uma compreensão do significado da própria vida constitui a maturidade psicológica, e não é subitamente adquirida numa certa idade, nem mesmo quando se alcança a maturidade cronológica. Isso, portanto é o resultado final de um extenso desenvolvimento pessoal. Sendo assim, a cada idade as pessoas buscam razões e devem ser capazes de achar alguma quantidade módica de significado congruente com o “quanto” sua mente e compreensão já se desenvolveram.

A Mitologia Grega nos mostra a sabedoria sob forma de Atenas saindo instantaneamente de dentro da cabeça de Zeus. Contrariando o mito, eu diria que a sabedoria é construída por pequenos passos a partir de um começo que pode ser considerado como sendo mais irracional, porém ponto de eclosão. Chegando á idade adulta as pessoas apresentam condições de obter uma compreensão inteligente do significado da própria existência neste mundo a partir da sua própria experiência nele vivida. É preciso que o tempo seja via facilitadora de uma compreensão madura sobre nós mesmos e o mundo, deste modo nossas idéias sobre o significado da vida podem (e talvez devam!) se desenvolver tão lentamente quanto nossos corpos e mentes.

Muitas experiências são necessárias para se chegar a isso. À medida que o ser humano se desenvolve, deve aprender passo a passo a se entender melhor; para com isto, tornar-se mais capaz de entender os outros, e eventualmente poder se relacionar com eles de forma mutuamente satisfatória e significativa. É preciso reconhecer que para encontrar um significado mais profundo, cabe às pessoas serem capazes de transcender os limites estreitos impostos por uma existência supostamente autocentrada e acreditar que é possível dar uma contribuição significativa para a vida, seja isso algo imediato ou em algum tempo futuro. Este sentimento é necessário para uma pessoa estar satisfeita consigo mesma e com o que está fazendo. Para não ficar à mercê dos acasos da vida, devemos desenvolver nossos recursos interiores, de modo que nossas emoções, imaginação e intelecto se ajudem, se complementem e se enriqueçam mutuamente, fazendo de cada um de nós pessoas conscientes de suas necessidades e valores.

Não. Viver não é simples. Não é acordar pela manhã e seguir aquela rotina que mencionei lá em cima. Isso é balela! Viver é mais que isso, muito mais. Há que se buscar os significados, os porquês e as razões para tal, sabendo que haverá situações onde as dúvidas podem apontar friamente um caminho obscuro ou uma provável desistência em meio a tantos desencontros. Nem sempre será fácil… Porém, um conhecimento amadurecido sobre si e adquirido de forma consciente, e a esperança no futuro podem sustentar-nos nas adversidades que inevitavelmente encontramos nessa jornada pelo caminho que nos leva ao “saber” de ser sábio; caminho esse que só vem com o conhecimento realmente aplicado.

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